Tempo estimado de leitura: 7’43”

Esses encontros arranjados por meus amigos, na tentativa de me desencalhar, são uma lástima. Estou satisfeita com minha vida, repito mil vezes e eles ignoram. Tudo bem, vamos para mais uma tentativa. Encontro sugerido por meu amigo Luís Otávio com seu melhor amigo Valdir.

Ficha: dois anos mais velho do que eu; professor e pesquisador de matemática da universidade, com todos os títulos possíveis; divorciado; sem filhos; corre todos os dias; gosta de viajar.

Valcir falou que me pegaria as quatro para a gente ir ao cinema, depois iríamos jantar. Três e meia, fui tomar banho, procurar uma roupinha básica para não assustar o pretendente a pretendente. Quinze para as quatro, ainda pensando no que vestir. Três para as quatro, parada em frente ao armário com cara de pânico. Quatro horas, o interfone toca e o porteiro diz que Valmir está me aguardando no carro. Como assim?! Homem nunca é pontual! Homem atrasa!

“Pede a ele para me esperar cinco minutinhos, ‘Seu’ Paulo”, tentei manter a linha.

Vesti a blusa branca com jeans que combinava com a única peça que tive tempo de escolher – a sandália verde – e desci correndo para não dar má impressão.

Claro, esqueci o batom.

Cumprimento padrão, acanhados pelo encontro às escuras. Eu, cabelo molhado e começando a secar daquele jeito. Ele, estilo seminarista, cabelo partido de lado, calça jeans sem puídos, camisa polo abotoada até o olho e tênis branco limpo.

Fomos para o cinema e não encontramos mais ingressos para a sessão do lançamento cult movie iraniano, sugestão dele, então optamos pelo barzinho ao lado da academia, sugestão minha. Lotado de geração saúde. Duvidei na adequação da escolha, mas afinal o cara corria e tal.

Percebi que a turma malhada olhava para a gente, alguns cochichos sobre o tênis de Vladimir (sabia!), outros cochichos sobre meu cabelo em processo de enrolamento de cachos (sabia!). Olhei para eles de forma a intimidá-los com minha madura superioridade, mas não deu muito certo. Ouvi risos. Achei que éramos o assunto dos que entravam e dos que saiam daquele lugar onde Whey parecia uma palavra normal e consumir aquilo uma forma de empoderamento.

Esquece. Momento de prestar atenção em Vandir e começar a entender onde pode estar nossa interseção. Possivelmente nas viagens, já que nunca fui muito fã de matemática.

Pedi um suco de uva com água de coco para parecer chic-saudável-sexy-interessante. Ele pediu suco de laranja. Minha intuição gritou: Isso não vai dar certo.

Resultado, nossa conversa foi morna até ele me dizer que corria todos os dias, o que chamou atenção de duas malhadas que tomavam suco verde termogênico. Mostrei interesse no assunto, curvei o corpo sobre a mesa, para “as mina” entenderem que o cara tinha uma pretendente a pretendente. Quase esbarro no copo gigante de meu suco – só consegui beber metade e já fiquei com vontade de fazer xixi.

Ele inflou o peito e disse com orgulho:

“Começo a correr 6:02 e concluo 6:53; daí vou em casa e sigo para o trabalho 7:37; almoço às 13:02 e retorno 14:08 para começar o turno vespertino de aula; concluo o dia com uma refeição leve e estudo até 23:18 quando vou me deitar.”

Os números de um relógio digital começaram a dançar em minha imaginação.

As malhadas saíram de perto.

Fui fazer xixi e respirar um pouco.

Passei meia hora tentando entender, com perguntas sutis, como alguém consegue ter essa precisão de rotina. A conversa foi beirando uma tentativa de diagnóstico de TOC somada com um medo crescente de contaminação de hábitos. Ele puxou outros assuntos, mas eu fixei na história dos minutos e fui perguntando coisas cada vez mais insolentes:

“Você cronometra seu banho também? Quanto tempo leva para o elevador passar entre os andares? Seu relógio é analógico?”

Justificava suas manias com a quantidade de afazeres em sua rotina. Professor, pesquisador, alguém que corre e cuida da casa. Rotina sofrida!

“Mas você não tem alguém que faça faxina”, perguntava como se fosse possível me distrair da história da exatidão do tempo.

“Tenho”, respondeu.

Imagine viajar com esse homem? Imagine conviver?! Vou matar o Luís Otávio.

Xixi de novo. Nunca mais peço essa merda desse suco.

Voltei bocejando de mentira, dizendo que o tempo voou e nem percebi o tarde da hora, 19:52 de um sábado, era melhor irmos embora.

Sem mais esforço levou-me para casa. Consegui deixar o carro com dois beijinhos no rosto, Ufa!

Mais um com o “xis” em minha listinha de tentativas dos amigos de encontrar um príncipe para a amiga (suposta princesa solitária): Tchau, Valdemir.

Nova anotação: cortar o cabelo.

Puxa, já são 22:47, melhor deitar.

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14 comentários sobre “Tempo estimado de leitura: 7’43”

  1. Rindo muito! Tá bem no estilo ” O diário de Brigdet Jones”. Fala sério, tênis branco LIMPO? Eu já teria saindo correndo. 😂 Adorei!

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  2. Como sempre
    Boa narrativa e consegue transmitir toda inquietação e deixando o leitor como seu cúmplice , mas não deixando de antever o término do “causo” dada a dica inicial que já predispunha que tal encontro não daria certo. Bj

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