Solitário vento de outono

“Na despedida as costas! Solitário vento de outono.” Matsuo Bashô Uma parede com muitos quadros, fotografias de frequentadores famosos, mesas de madeira escura e um lustre que permite uma iluminação opaca. Perfumes competem no ar, petiscos e gente. No palco baixo, um pianista com rabo de cavalo e calça rasgada toca Debussy. Na cozinha, uma … Continue lendo Solitário vento de outono

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Sobre assassinos e sobreviventes

Está tudo escuro e silencioso nessa prisão mental. O cheiro é de mofo, de coisas vivas que foram privadas de luz e ar por longos anos. Cheiro de desamparo. Aqui não há chão firme, só um labirinto de areia movediça: não sei se fico imóvel e afundo lentamente ou se tento levantar e corro o … Continue lendo Sobre assassinos e sobreviventes

Tranças

Enquanto preparo o café da manhã, ouço passinhos no corredor. Não preciso olhar para saber quem é sua dona. Segundos depois ela está na sala, com seu um metro de altura, me criticando por ter saído da cama antes dela. Usa um pijama com estampa de natal: renas, pinheiros e papais noel flutuam no fundo … Continue lendo Tranças

Crush

Se conheceram em um aplicativo há menos de dez dias e conversam todas as noites desde então. Conquistaram certa intimidade: sentem-se à vontade para falar de coisas sobre as quais não falam com ninguém real —  foi essa a expressão que ele usou depois de contar que estava há mais de seis meses sem sair … Continue lendo Crush

Marcada

A primeira vez foi aos 18. Primogênita de uma família parcialmente conservadora, achei que não seria um grande esforço esperar até a maioridade para reclamar os direitos de fazer com meu corpo aquilo que bem entendesse. Mas a curiosidade crescia com a idade. Primeiro a satisfação de não chorar com a vacina de sarampo. A … Continue lendo Marcada