João ninguém

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Crédito: Pixabay

Dores são minha principal companhia hoje. Antes eram corpos esguios, fios de  cabelos e perfume adocicado que impregnavam meus lençóis. Transava a noite toda até perder a hora do trabalho. Aproveitava idas a congressos e também supostas horas extras para bancar o feito.

O caminho até minha casa tem parecido mais longo. Velho quando sai de casa sofre. As pedras soltas pelas calçadas me fazem tropeçar e cair. Foram duas vezes, nos últimos quinze dias. Nem pareço aquele homem maratonista, que corria na praia todas as noites e nem pensava em casar. O vigor correria solto pelas minhas veias naquela época.

Entretanto, acabei mudando de ideia sobre o casamento. Depois da turma inteira mudar de time e passarem a me excluir de certos compromissos, vi num juntar de escovas de dentes, um caminho seguro e confortável para tornar-me um homem maduro. E. foi assim, no meio desta reflexão, que num churrasco na casa do Zé, conheci a Rita: morena, cabelo na altura dos ombros e um sorriso que de pronto me encantou. No começo, só queria trepar. Meu pau trincava só de passar naquele belo par de pernas ao redor da piscina do prédio. Depois, fui descobrindo que Ritinha, bancária recém chegada na capital, era amiga de infância da Raquel, mulher do Zé. Veio transferida de outro estado e não tinha nenhum parente na cidade. Da piscina para cama dela foi um pulo.

Do casamento com Rita nasceu Ana. Em nada ela parecia comigo. Não se interessava por livros, tampouco por arte. Não brincava na escola, nem frequentava festas na adolescência. Depois de  repetir duas vezes o segundo ano do Ensino Médio, resolveu fazer um intercâmbio na Argentina junto àquele povo de merda. Foi lá que conheceu o babaca do Pablo, sujeito mirrado sem sal nem tempero e burro como uma porta. Ao concluir os estudos, mudou-se de vez para lá perto dos hermanos e longe de mim e da Rita.

É duro atravessar a rua com estes semáforos temporizados. Sempre que consigo cruzá-la até o meio, ele reabre e conto com a clemência dos motoristas em aguardarem a lentidão vergonhosa com que meu corpo se locomove tal como um ser rastejante. Debaixo do braço tenho seis resultados da saga de exames que faço todo semestre. Fora os remédios diários para pressão e diabete. Também artrose e prevenção de osteoporose. Certa foi a Rita que fugiu antes que sobrasse para ela. Aguentar-me por 30 anos já bastou como cumprimento de pena, a velhice junto a mim já seria demais.

O consultório do Dr. Marcos nunca pareceu tão distante. Já passei da casa do Zé que fica praticamente ao lado e nada. Ele parece abatido ultimamente. Nem os netos tem o alegrado mais. O que tem a idade da Bia, uns oito eu acho, mudou-se com a mãe para o Rio. Acho que a morte do Ricardo pode estar influenciando também, os dois eram amigos de escola e o Zé ficou triste quando soube que ele tinha câncer. Agora deve estar mais ainda.

Acabo de lembrar que no fim do mês a Ana chega com o marido e a Bia e, vão ficar lá em casa. Pelo menos minha insônia sumirá por uns tempos, os papos com meu genro são verdadeiros soníferos. Temo que Bia tenha herdado os genes de incapacidade dele. Vou rezar para ter os meus predominantes.

Mais uma esquina e estou em casa. Ainda em tempo do jornal das seis. Tanto assalto que passa lá e ninguém faz nada! Só depois que algum filho de um bam bam bam morrer é que vão tomar providências. Merda! Não tinha reparado neste bueiro aberto na ida. Agora além da dor na coluna, é o joelho que vai me ferrar depois desse tombo! O que é aquele carro vindo feito louco? Não tá me vendo aqui com a maior dificuldade para levantar deste buraco? Pior é meu pé preso, cacete!

Ahhhhhh!

***

– Filha, preciso te contar algo, o Pablo tá em casa? É que ligaram do IML. Não sei como dizer. Seu pai morreu.

– Não, não foi isso. Parece que foi atropelado na esquina de casa, não sei muitas informações. Tô indo reconhecer o corpo. Vem me ajudar, não quero ajeitar  tudo sozinha. Fica em paz, te mantenho avisada.

Que presente me deixaste, hein, João! Além de vivo me perturbar, morto não me larga.

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