História que não acaba mais

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Que criança não gosta de histórias? Se for contada pela mãe ou pelo pai, então. Mariela adorava ouvir as histórias que a mãe contava antes de dormir. Mas o que ela amava mesmo era entrar na história, ou melhor, roubar um detalhe qualquer esquecido no canto da página e transformá-lo numa história dentro da história, emendando uma na outra até não acabar mais.

Foi o que aconteceu por exemplo quando ela reparou na saia da menina da última história que a mãe tentou ler até o fim. Pronto, assim começava uma história dentro da história: “A saia rodada que a menina pegou escondido da mãe”. Na história da saia rodada tinha uma vassoura que ninguém via, só a menina: “A vassoura no alto da cabeça da menina que a mãe não viu”, e assim por diante.

Era muito inventiva a menina, mas tinha um probleminha. As histórias não chegavam ao fim porque Mariela nunca parava de inventar mais uma, e outra, e depois outra. Só parava quando dormia. Na verdade, nem assim. Porque as histórias continuavam no seu sonho. Mãe, lembra da vassoura? Sonhei que… Chega Mariela, já está na hora de ir para a escola, põe o casaco. Casaco? “O casaco que a mãe queria que a filha vestisse”. E lá ia Mariela inventando outra vez. Ah, e vocês repararam que nunca podia faltar uma mãe nas histórias da Mariela? “A mãe que não queria mais ouvir histórias”.

A mãe ficava que nem louca tentando terminar de contar as histórias. Seu sonho era dizer: E a história chegou ao fim. Mas esse dia não chegava nunca. Gente boa a tal da mãe da Mariela, mas mesmo sendo uma pessoa legal, sua paciência também tinha limite. E um dia ela criou um decreto: É proibido falar durante a história. Decreto? “A menina que não sabia o que era Decreto de mãe”. Essa história era justa. Afinal, toda criança merece uma história para entender o significado de uma palavra.

Já viram, né? O tal decreto não funcionou. Diante da insistência da mãe em chegar ao fim, a menina chorou e emendou mais uma história: “A menina que chorou porque não queria que a mãe chegasse ao fim”. Mas, peraí. A menina não queria que a história chegasse ao fim, ou ela quis dizer mesmo que não queria que a MÃE chegasse ao fim? Que confusão na cabeça da mãe. “O fim da história que confundiu a mãe da menina”.  Ou será que a confusão era da Mariela? A mãe pensou, pensou…

A menina que não queria que a história chegasse ao fim tinha era MEDO que a mãe, que ela e que tudo também chegasse ao fim, como as histórias. Afinal, por que tudo tem que acabar? A brincadeira, o livro, o sorvete. Fim, para Mariela, era uma palavra feia e assustadora. Não gostava de jeito nenhum, como quem não gosta de jiló, de bife de fígado ou da cor marrom. A mãe finalmente entendeu a confusão da Mariela. Gosto não se discute e medo nem sempre tem explicação, mas merece uma história. E a mãe da Mariela, que também já teve um medo assim, resolveu contar “A história da menina que tinha medo do FIM da história”.

O FIM era um fantasma misterioso, assombrava toda e qualquer história. Era ele que acabava com os melhores momentos, transformava alegria em desalegria, um verdadeiro estraga-prazer. Mariela logo de início ficou com mais  medo ainda do FIM. Depois começou a se irritar, a achar que ele era um tanto egoísta, chato, abelhudo. Chegava de repente, sem ser convidado e tudo tinha que ser do jeito dele. E era sempre o FIM que decidia quando tudo terminava. Isso não era nada justo.

E pensar nisso foi deixando Mariela com raiva, vermelha, brava mesmo. Quero saber quem foi o azarento que inventou o FIM. O medo do FIM foi então sumindo da história, ficando pequenininho, até que Mariela decidiu colocar um ponto final no medo e também no próprio FIM.  Isso mesmo, a menina decidiu acabar de uma vez por todas com ele. Chega! Não quero mais saber dessa história. E a partir de agora quem decide quando a história termina é o PONTO FINAL.

Não se sabe até hoje quem inventou o FIM das histórias, mas agora vocês já sabem quem acabou com ele. E foi assim que, pela primeira vez, uma história contada pela mãe da Mariela chegou ao fim, ou melhor, ao PONTO FINAL.

 

 

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2 comentários sobre “História que não acaba mais

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