Desprezo

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Crédito: Pixabay

Gosto de empurrar meus amigos na fila. Também de  colocar o pé para que caiam. Gosto da sensação de liberdade que isso me traz. A mesma sinto quando culpo os outros dos meus erros, como no dia da festa junina do 5º ano, em que cortei a trança do chapéu da Carolina, aquela chatinha que só sabia chorar e culpei o Pedro. Tenho vontade de bater neles até sangrar. E isso acontece com frequência.

Também não tenho paciência em ouvir adultos em conversas nem conselhos. Outro dia a professora me chamou no fim da aula e disse que tinha chance de repetir a série e não seguir meus amigos para o 9º ano, rumo a tão falada formatura. Seria ótimo ter colegas menores para bater e fazê-los chorar diariamente com ameaças. Entretanto, ficar uma semana longe daquele inferno que chamo de casa não é nada mau.  

Lá vem aquele verme em forma de menino em uma nova tentativa de chamar minha atenção. Nunca vou gostar de homens; por mim jogaria alguns numa rodovia com tráfego intenso e soltaria-os ao léu. Ou em um navio prestes a afundar. Alguma maneira que os fizesse entrar em pânico segundos antes da morte. Ao tentarem respirar lhes faltasse forças para buscar o ar.  Marcos é persistente em suas tentativas, mesmo depois de xingá-lo e até oferecer sempre o ápice do meu mau humor segue tentando estabelecer algum tipo amizade comigo. Todas as anteriores foram em vão.

Para deixar claro, odeio aproximações humanas. Não gosto das festas de fim de semana que toda sala vai.  No ônibus ocupo o lugar mais ao fundo, longe de tudo e todos. Sempre carrego fones de ouvidos para não correr o risco de me render ao ahã sem fim com um idiota que sente ao meu lado.

Quando criança não gostava de emprestar meus lápis. Tampouco dividir meu lanche. Achava uma puta sacanagem ser obrigada a oferecer meu bolinho recheado a um amigo. Meus brinquedos também não eram emprestados pois ninguém tinha o mesmo cuidado que eu. Além do mais, quando levava minhas boneca à casa da Ana e ela as quebrava, passava  horas ouvindo minha mãe e a dela dizerem que tinha sido sem querer. Eu queria matá-la. Mas me contentava cortar os cabelos das bonecas e riscar todas com canetinha. A Ana era tão burrinha, não sabia brincar de luta com os cachorros, tinha dó. Eu gostava mesmo de prendê-los no baú e só tirar de lá depois de chorarem muito. Os ganidos eram tão altos que a vó da Ana burrinha vinha acudir. Eu não dava a mínima quando ela dizia para minha mãe, no fim da tarde, o quanto eu era ruim e sem educação. Uma criança horrível! Terrível! Não sabia como me aguentava. Até que minha mãe cansou de ouvir reclamações das mães dos meus amigos e passei a brincar sozinha todo o tempo. No início era maravilhoso ter a casa só para mim todas as tardes. Podia ouvir rock, fumar maconha e assistir filmes. O vizinho da frente tinha me apresentado a maconha. Antes pediu para passar a mão nos peitos. Eu deixei. aquele babaca servia para alguma coisa então mantinha ele sempre por perto. A mãe chegava no fim da Malhação e ficava em casa pelo tempo da troca de roupa para ir à academia. Quando  voltava, fingia estar dormindo, sempre. Também acordava antes dela para ir à aula. Não queria responder perguntas sobre amigos e escola. Ela parou de insistir quando seu foco mudou para o Thiago, o instrutor da academia que começou a namorar. Às seis e meia, enquanto vestia meu uniforme, ouvia gemidos vindos do quarto dela. Dia após dia.

Seis meses depois ele veio morar com a gente. No início mantive as tardes sozinha. Depois, ele passou a chegar um pouco antes da mãe em casa. Então mais cedo. E cada vez com mais antecedência. Trocava de roupa na minha frente enquanto eu esquentava meu almoço. Do quarto trancado escutava gritos das atrizes do filme pornô que ele assistia. Sabia que  tinha algo errado com aquele cara. Minha mãe nunca parava para me ouvir. Continuou não escutando mesmo quando apareci com uma marca roxa no rosto. Perguntou somente se eu tinha brigado na escola como em outras vezes. E seguiu-se neste ritual tarde após tarde. Tenho ânsia só de pensar nas mãos dele tocando-me enquanto dormia. Em todas as vezes que me bateu depois de sair de cima de mim. Foi assim até hoje. São meia noite e meia e não sei onde este ônibus está me levando. Torço para que ninguém veja as manchas de sangue na minha camisa quando descer. E também que não façam-me perguntas sobre meus pais. Pai,  nunca tive. E Mãe, agora chora sob o corpo de um escroto.

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