Daqui a alguns anos: resistência ou sabedoria?

Caro Eu,

Espero que ainda esteja vivo. Como trinta e cinco anos é uma distância e tanto para eu percorrer daqui até aí, vai que…

Espero também que a coluna não cobre muito caro os anos de insalubridade as quais a submeti em frente ao computador e dentro do carro. Falando nisso, é bom eu voltar a fazer pilates, preciso trabalhar a lombar e a cervical para entregar um corpo ativo a mim mesmo. Não quero passar a velhice inteira lendo no sofá da sala. Quero ler nas poltronas de aviões e nas espreguiçadeiras de hotéis ao redor do mundo. A propósito, quantos países visitei entre 2018 e 2053?

Tenho tanta coisa para perguntar, tanta curiosidade acerca da vida aí no futuro. Por acaso se realizou a minha profecia de que os cidadãos serão proibidos de possuir painéis solares para governos e grandes corporações lucrarem com o abastecimento dos carros elétricos? Não precisa responder, essa era fácil de antecipar. Ainda tem gente no Rio Grande do Sul trabalhando para sustentar funcionários públicos? Ou a Argentina brasileira finalmente faliu e virou um imenso pasto? As pessoas estão com câmeras dentro dos olhos e roteadores wifi sob o crânio? O Grêmio conquistou a décima Libertadores?

Esquece, vamos voltar a falar do que realmente importa para nós dois: eu.

Consegui superar aquele branco que me dá toda vez que estou diante de uma situação decisiva? Caso já tenha superado, vou descrever o sentimento e as consequências disso, apenas para que eu não esqueça de valorizar esse feito – que para quem vê de fora pode ser banal, mas para quem o vive com a intensidade paralisante do autoboicote representa frustração e estagnação em todas as áreas da vida.

Toda vez que preciso dar um passo à frente, toda vez que tento fazer algo novo, toda vez que flerto com o que está fora do meu controle, fora das minhas habilidades aprendidas, fora dos movimentos e pensamentos já automatizados, eu travo, erro, me prejudico.

Lembra das três vezes que amassei parachoques nos pilares de garagens? Carros diferentes, lugares diferentes, fases diferentes da minha vida; mas exatamente o mesmo comportamento. Desnorteado por estar em um local novo, faço o movimento errado e o carro encosta no pilar. Paro. Sem pensar,  volto a acelerar para tirar o carro daquela situação. Amasso e raspo a porra toda. E, como sempre, somente depois me ocorre que deveria ter dado ré para minimizar o estrago.

Vamos sair da direção e ir para o trabalho ou para os afetos: me comporto exatamente igual. Se surge um problema diferente para resolver ou um conflito para enfrentar, eu mudo de assunto, silencio, ignoro, procrastino. Tudo porque tenho uma resistência absurda em enfrentar o desconhecido para encontrar soluções, alternativas, coragem.

Ah sim, essa característica não é privilégio meu. Qualquer um fica inseguro diante da mudança ou do pênalti decisivo. Mas muitas pessoas não se travam nem se boicotam. Tem a ver com força e também tem a ver com alguma prepotência ou onipotência – procurar fazer algo que não está no automático é, de certa forma, aceitar-se imperfeito.

Merda! Parece que estou programado a fazer, pensar e ser de determinado jeito;  e subverter essa programação poderá trazer consequências absurdamente ruins. É muito catastrofismo.  E aqui, em 2018, ainda não entendi o que aconteceu para eu ser assim.

Mas espero que em 2058 isso já esteja resolvido há muitos anos, muitas décadas. Acredito que um insight seja suficiente para iniciar essa transformação. Porque velhice é sinônimo de sabedoria. Mas sabedoria não se conquista sem mudança constante.

Cuide-me,

Lisandro

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Foto: Rafael Trindade (Instagram: @trindade_r )

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