Daqui uns anos: Quando eu for você

Olá, Eu do futuro! E aí? Sentiu minha falta? Espero que não, até porque somos um mesmo pacote, não importa a quantidade de mudanças sofridas. Sei bem do medo que temos de perder a juventude, e sei bem que a vontade de retornar ao passado é tentadora, mas aqui aos 35, você parece ter entendido que a pior velhice é a que toma conta da alma. Nada de ser uma chata nostálgica que não sabe tirar proveito do presente: coisas boas podem acontecer em qualquer tempo e lugar. Enquanto você tiver algo de mim, você nunca será velha demais para nada! Lembre-se disso e dos exemplos que teve. Você precisa honrar cada um deles. Não cometa os mesmos erros dos nossos ancestrais, mas também não deixe de valorizar o que eles nos ensinaram. Encontre seu humor em tudo, seja paciente, dance pela casa, ame apesar do sofrimento e tente não machucar o próximo e nem guardar rancor. Acima de tudo, não se deixe desrespeitar. Independente da idade e seus inconvenientes, você ainda é um ser humano digno.

Agora, também não vai virar a tiazona que se acha adolescente, heim? Quando peço para que você se adapte ao presente, não estou exigindo que você se encaixe numa geração à qual não pertence. Eu espero de todo o coração que você ainda use esmaltes coloridos, que esteja aproveitando os cabelos brancos pra usar todo tipo de tintura colorida existente e que ainda procure se atualizar das novidades do mundo, mas faça tudo isso porque está afim. Não para parecer legal. Não para se encaixar. Não por medo da morte ou das rugas ou de se tornar obsoleta. Faça por você! Porque se existe uma coisa que já estamos velhas demais para fazer é tentar agradar os outros. Seja a mulher sábia, experiente, divertida e louca que imagino e estaremos bem.

Falando em cabelos coloridos e afins, também gostaria de lembrá-la que a sua única obrigação agora é meter o pé na jaca. Lembre-se de que o pior que pode acontecer é morrer, o que, convenhamos, não é uma possibilidade distante em seu futuro. Se você não lembra das coisas estapafúrdias que prometeu fazer nessa idade, tenho aqui um rascunho da sua primeira bucket-list, só pra servir de inspiração:

  • Junte seus amigos próximos para criar aquela comunidade alternativa de septuagenários headbangers;
  • Pule de qualquer coisa que possa falhar e te transformar numa pizza de asfalto (bungee jump, paraquedas, asa-delta ou sei lá o que existe aí no seu tempo);
  • Furte paracetamol das farmácias como forma de protesto contra o sistema e contra medicamentos hepatotóxicos;
  • Se estiver no clima, experimente as drogas que você sempre evitou por medo de ficar viciada (ou por federem, tipo cigarro);
  • Crie seu alter-ego drag e passeie com ele em lugares públicos sempre que possível;
  • Aprenda mais um idioma para prevenir Alzheimer. Aramaico pode ser uma boa, até pra quando você quiser bancar a louca com gente inconveniente;
  • Aprenda alguma coisa que exija habilidades físicas para não ficar com o corpo todo atrofiado. Se você ainda não tomou coragem de fazer krav maga a hora é essa (só cuidado com os ossos);
  • Aprenda trigonometria porque você sempre odiou essa desgraça e é hora de se vingar;
  • Continue se tatuando até parecer um membro senior da yakuza;
  • Continue indo em shows e festivais porque isso te recarrega;
  • Viaje, nem que seja só até o subúrbio;
  • Dê um jeito de ver uma aurora;
  • Se possível, dê um jeito de sair da Terra e ver o espaço;
  • Tente cultivar uma horta, sem matar as plantas em menos de quinze dias como de costume;
  • Vire voluntária num abrigo de animais. Você precisa deles em sua vida, mas não é bom tê-los em casa nessa idade.

Fora isso, tem outras coisas importantes que você deveria fazer. Por acaso você ainda está casada com aquele que eu acho que é o amor das nossas vidas? Se estiver, lembre-se de arranjar tempo para ele. Se não estiver, arranje tempo também, pelo menos pra saber se ele está feliz. Vocês sempre se apoiaram, não deixe isso morrer junto com o romance. E também não deixe o romance acabar na sua vida. Casada, divorciada ou viúva, certifique-se de que sempre haverá tempo para aquele jantarzinho à meia luz, nem que seja só para uma pessoa. Você merece!

Perceba que estou supondo que você tenha ido adiante com minha resolução de não ter filhos. Se foi esse o caso, lembre-se de deixar suas coisas em ordem, se precaver contra possíveis golpes e descolar um cuidador bonitão quando não conseguir mais fazer as coisas sozinha. Aliás, faça isso mesmo que tenha mudado de ideia em relação à maternidade. Eu não faço ideia de quem você se tornará como mãe, mas sei o bastante sobre pessoas para dizer que seus filhos, por melhores que sejam, nunca vão ser ou fazer o que você gostaria. Não crie expectativas com eles. Em vez disso, sirva de exemplo e seja resolvida e independente, por mais difícil que possa ser. E lembre-se de não fazer com eles aquilo que você não gostaria que fizessem com você. Aliás, essa é outra regra que vale para todo mundo. Acho que você devia tatuá-la!

Por fim, quando sentir que sua hora está para chegar, não tenha medo. Nos preparamos para isso desde o dia em que nascemos e vamos tirar de letra esse negócio de morrer. Vivas ou mortas, somos invencíveis!

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