Urutaú

A velha era parteira; teve um filho de marido nenhum. Criou o menino com a mesma marra que o arrancou do bucho. A bruxa batizou a peste de Urutaú.

O povo gosta de falar. Dizem que a barrigada durou mais de dez meses, tantos homens se deitou que perdeu as contas e esqueceu o menino dentro.

Era madrugada. Lembro como se fosse hoje. Mãe-da-lua cantou uma vez, cantou outra vez e uma vez mais. Como foi que ninguém reparou na roquidão do bicho? Três ao invés de sete cantos. Cantos, não, gritos. Mau presságio na certa, eu vi tudo lá de cima. Não dá para confiar num pássaro que se empoleira em tronco vertical de árvore morta, não constrói ninho e anda se camuflando. Seu bisavô era vivo naquele tempo. Cento e cinquenta anos de azar foi a herança que recebeu a criatura dele, que segundo o ancião isso era pouco para um bastardo.

A cidade condenou a maldição do avô à neta emprenhada e o enforcou em plena praça pública. Nessa mesma hora a louca achou de parir. E o dia seguinte acordou cinza alaranjado, um horror de amargura. Desde que nasceu o menino os dias nunca mais foram azuis. Uns puseram culpa à praga do velho, outros à desgraça que cometeram e outros ainda à chegada do moleque. Durante anos maltrataram mãe e filho, com razão. Mas sempre que uma mulher digna embuchava do marido, quem socorria era a parteira.

Até que um dia foram em busca dela e não a encontraram. Procuraram em toda parte, inclusive ao redor de sua casa. O céu estava ficando esquisito.

O povo sabe das coisas. Toda a praga que vai, volta. O homem covarde que emprenhou a parteira e não quis saber do filho agora sofre com a mulher em casa esperando um herdeiro legítimo que não quer nascer de jeito nenhum.

– Bate na porta.

– Eu não.

– Bate, homem! Não vê que tua mulher se contorce de dor em casa?

– toc, toc, toc.

Silêncio.

– toc, toc, toc.

Gemido.

– Abre a porta devagar…

– Vem, homem de Deus!

Urutaú se revirava em febre:

– Nuvens brancas num céu noturno.

– Mentira, mentira!

– Rachaduras nas pedras.

– Não diz isso, tenho medo!

– É a treva.

– Fecha todas as cortinas, janelas, portas. Passa o cadeado!

– Não adianta, Urutaú ficou doente.

– Eu sabia, eu avisei.

No mesmo instante uma faísca caiu do céu atravessando a goteira do telhado passando rente às cordas da rede da mãe de Urutaú, que jazia há dias, caindo exatinho nos pés do bastardo incendiando todo o barraco.

– Jesus, Maria, José, alguém acode!

– Socorro!

– Volta pra lá, homem! Deixa que eu chamo o povo.

O povo é miserável, ele sabia. O homem tremeu na base, criou força ao invés de coragem e saiu correndo em direção à casa, mas passou direto para o rio e nadou, nadou até chegar do outro lado num fôlego só. De longe viu o fogo se alastrar, o povo que chegou em comboio foi para botar lenha na fogueira.

As chamas tomaram conta das casas ao redor e o povo entrou em desespero. Urutaú saiu carregando a mãe morta em seus braços. Forte e corajoso como ela. O homem sentiu uma ponta de orgulho e outra dele ferido. Nadou de volta e encontrou o menino na beira, ajoelhado ao corpo da parteira que boiava nas águas daquele rio morno. Os dois se olharam com compaixão, e não trocaram uma palavra. Dizem que cordão umbilical se estende além do que se pode imaginar. A bruxa maldita era tratada com desdém, Urutaú lembrava. A velha parteira acudia qualquer um que batia em sua porta.

E então Urutaú solidificou todas as casas do povoado. Construiu, destruiu e reconstruiu para que todos vissem do que ele era capaz. Ele, que era feito de amor e ódio, como o povo daquele lugar.

Porque o povo é assim.

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