Tranças

tranca

Enquanto preparo o café da manhã, ouço passinhos no corredor. Não preciso olhar para saber quem é sua dona. Segundos depois ela está na sala, com seu um metro de altura, me criticando por ter saído da cama antes dela. Usa um pijama com estampa de natal: renas, pinheiros e papais noel flutuam no fundo cor de rosa. Os cabelos castanhos e lisos escondem seu rosto, grudam na boca, nos olhos. Ela joga aqueles fios para o lado, para cima, para frente e para trás,  mas não se desvencilha deles, são rebeldes como a dona.

A cena de sua entrada de meias e pijama é adorável e sempre me encanta.  O problema são os cabelos, parece que eu mesma estou me afogando neles, mas sei que se eu encostar na cabeça dela agora, haverá retaliação. Espero que acorde, porque o sono ainda está nela. É um estado intermediário em que qualquer erro no meu proceder pode despertar a fera que habita seus sonhos. Controlo minha ansiedade.

Conforme ela vai despertando e senta para o café da manhã, de frente ao prato de banana amassada que preparei, percebo que as madeixas laterais e frontais correm o risco de se empaparem de comida. Posso amarrar seu cabelo, filha?

A resposta nunca é positiva. O processo de convencimento com sorte dura uma boa meia hora, mas pode durar uma manhã inteira. Dar três simples voltas com o elástico custa ouvir alguns gritos de sagui. As tranças que gosto tanto de ver ornando seu rosto podem levar até meia hora e ela pode se metamorfosear num  leão, sendo otimista, em um gremlin. Podem ficar boas, mas também é possível que fiquem horrorosas e assimétricas e seja necessário desmanchá-las para tentar de novo.

Algumas vezes preciso usar a técnica ancestral da chantagem e medo. Hoje foi assim: Filha, posso amarrar seu cabelo? Não. Por favor!? Vai sujar e atrapalhar suas brincadeiras, deixa, é rápido, prometo que não vai doer, vou ser muito delicada! Não.

Resumindo, eu nesse estado hormonal que antecede a menstruação tenho a paciência de uma bomba relógio, então disse que se ela não me deixasse arrumar seu cabelo, o cortaria igual ao de seu irmão. Você não vai cortar meu cabelo! Então vou te levar pra cortar no salão, porque quem tem cabelo comprido como o seu, precisa prender e deixar pentear, senão embaraça pra sempre e vira casa de bruxa.

Não funcionou, aliás, piorou, aos prantos ela disse que estava com medo da minha tesoura e de mim também. Aí aquele cabelão dela começou a grudar no ranho que saia do seu nariz e minha aflição aumenta.

É claro que fico frustrada. Sei que a medida do meu desapontamento é diretamente proporcional às expectativas que criei de arrumar o cabelo da minha filha, antes mesmo de saber que teria uma.

É que quando somos crianças, algumas  imagens ganham um significado que só nos damos conta na idade adulta e neste caso, tudo começou lá atrás, quando eu passava as férias na casa da minha prima e costumava assistir enquanto minha tia com toda a paciência e delicadeza trançava seus cabelos acobreados. Para mim, amor era tudo que estava subliminarmente escondido naquela cena, então guardei numa caixinha das coisas bonitas, bem no fundo do meu inconsciente.

Sei que naquela época, entre tentativas e erros, uma hora acertei. Foi a mesma sensação de descobrir como assoviar, ou fazer bolas de chicletes, e já mais velha, dirigir um carro. Aquilo era PODER. Depois de descobrir como fazer tranças, eu me sentia invencível no mundo.

Mas por uma ironia do destino ou só porque a vida insiste em nos mostrar seu lado duro,  Catarina odeia que eu mexa nos seus cabelos.

A criança que me habita fica tão ofendida que digo que agora não prendo nem que ela me implore de joelhos. Mentira, quando o cabelo atrapalha demais suas atividades ela vem toda gentileza pedindo que eu prenda e  fico numa faceirice só.

Preciso decidir rápido, são muitas escolhas para tomar em tão pouco tempo. O grau de dificuldade do penteado é também a medida do risco que estou disposta a correr.  Será um rabo de cavalo? duas maria-chiquinhas? tranças simples ou as magníficas tranças embutidas? Se eu pensar demais ou se a mão vacilar, pode ser que ela desista e saia correndo. Mas hoje estou corajosa e aposto na trança, amo as tranças, por mais que exijam mais persistência da minha parte e mais paciência da parte dela.

E quando termino, mal posso me conter de orgulho e satisfação, a Catarina parece uma indiazinha, uma boneca, um bibelô de saia. A deixo na escola assim, encantadora e trançada e recupero minha paz de espírito para poder viver o resto do dia.

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7 comentários sobre “Tranças

  1. Instantes de nosso dia a dia que parecem uma eternidade. Somente para quem os sente tem tamanha importância. Mel, me identifiquei não com as tranças mas com o ritual matinal com o meu pequeno.

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  2. Melzinha …viajo em seus relatos, Sao realmente incríveis,nós mães sempre estamos tentando fazer tudo certo, mas nem sempre conseguimos né !! Desistir nunca, Bora domar a Fera Catarina 😘

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  3. Essa narrativa me fez lembrar quando minha mãe me fazia maria-chiquinha na infância.Sofria muito porque minha mãe sempre foi meio bruta e ela dava cada puxão no meu cabelo… Mesmo assim, é uma lembrança que guardo com carinho. O cabelo com a risca ao meio, cada maria-chiquinha amarrada com um elástico de gatinhos vermelhos e eu indo pra escola com meu uniforme perfeitamente passado a ferro.

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  4. Simplesmente lindo , me deu saudades do tempo que eu não tinha tempo de curtir meus pequenos . Não consigo imaginar Catarina uma leoa 😂😂.
    Parabéns Mel .

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