Sem registro

 

Na minha casa somos só mulheres, homem nenhum fica.

Na teia/trama que me liga à minha mãe, tem também minha avó e minha tia.

Somos todas teias da mesma família.

De onde vem meus olhos, meu nariz?

Sou filha só de mãe para que minha mãe não fique sem filha.

Na falta da falta, fico eu sem pai e mãe, já que minha mãe também é filha e meu pai ninguém me diz.

Desconheço a origem, posso então ser muitas: loira, morena, daqui ou dali.

Sendo tantas não sou nenhuma, e no vai e vem não estou em lugar nenhum.

Qual a garantia de existir se todo dia tenho que me reconstruir?

Nos homens vejo mãe, difícil mesmo é encontrar um homem/pai.

Qualquer um pode ser ele.

Na rua, na escola, no mercado.

Mas se qualquer um é o mesmo que nenhum, então continuo filha só de mãe.

Nessa busca sem fim, por um homem que olhe para mim, não sei bem o que olhar.

Os olhos? O nariz?

Desenho uma marca, como se meu corpo fosse um papel, mas basta fechar os olhos que tudo se desfaz.

Se não tenho a marca/pai, melhor é não saber.

Faço de conta que não sei, para que finjam não saberem que sou uma filha fora da lei.

Assim, na teia/família tudo fica completo.

Nenhum homem falta e posso ser tudo, eu e minha mãe.

Ou nada serei.

Teia/morte, mãe/filha, desenhando lentamente minha não existência.

Sem marca não me separo,  e meu destino é procurar alguém que não me quis.

Fingerprint

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4 comentários sobre “Sem registro

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