Óculos decisivos

Adopt,don't shop!

Crédito: Canva

Aos treze mudei-me pela primeira vez de casa. No auge da separação dos meus pais seria um alívio depois de muito conviver entre períodos de tensão e paz. Não era muito distante de onde morávamos, mas dentro da cabeça de uma pré-adolescente era como se estivéssemos a léguas de tudo que tinha como referencial de felicidade até então.

Na casa nova não tinha quintal e era longe da escola. Em compensação, teria um quarto só meu e outro para mana. A vó também não estaria ao alcance de um grito ou de um pulo através do muro que separava nossas casas, contudo a mãe viria almoçar conosco todos os dias. O Baby, nosso cachorro, também estranhou a casinha próxima à porta dos fundos e não junto à da frente, como na antiga. Alguns dias víamos seu olhar de tristeza nos esperando no portão, mas logo substituído pela felicidade em descobrir sua residência canina dentro da área de serviço, fim dos tempos frios no quintal. Foram estas compensações, certas ou erradas, desenvolvidas desde cedo, e não sei por que cargas d’água por mim esquecidas, que traziam leveza aos contratempos da mudança. Meu pensamento era encontrar graça na situação daquele instante não como um conformismo, e sim como uma maneira de evitar mais chateações.

Tantas outras transições vieram depois: uma outra escola aos quatorze, outra casa aos quinze; escolher entre ballet ou inglês pois a grana era curta aos dezessete, um emprego em outra cidade ao vinte. Cursos, trabalhos e amizades surgiram. Algumas pessoas tentariam em vão convencer-me dos caminhos tão mais interessantes a experimentar, mas diferente da menina de treze, eu chorava, esbravejava e questionava as opções terem sido divergentes das minhas vontades. Seguia, vencida às vezes pelo cansaço, entretanto sem observar o que de fato poderia receber de produtivo com aquelas novas oportunidades.

Minhas análises persistiram por muito tempo: questionei os motivos da escolha tardia da minha carreira, de não aprovar determinados comportamentos preconceituosos das pessoas ao meu redor e me chatear com isso. De não seguir a moda seja em música ou roupas. Dos motivos pelos quais precisava sustentar e justificar minhas escolhas. Era pura insegurança, eu sei. Também presente no adiamento constante em buscar meus sonhos.  

Não sei apontar quando o período de inércia me deixou. Acredito que o estalo surgiu ao perceber que a responsabilidade dos meus atos está diretamente ligada a forma de encará-los. E quando surgem frustrações, não deixo de ficar triste ou pensar nas outras possibilidades, é claro. A tentativa é burlar o questionamento sem fim e encarar o aprendizado. Será o mesmo tempo utilizado para contar tragédias ou histórias engraçadas, os óculos com poderes narrativos são meus. Também a das escolhas práticas ou das lamúrias, ambas cabem a mim, assim como as expedições e histórias criadas em 1996, na casa sem quintal.

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5 comentários sobre “Óculos decisivos

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