Crush

Se conheceram em um aplicativo há menos de dez dias e conversam todas as noites desde então.

Conquistaram certa intimidade: sentem-se à vontade para falar de coisas sobre as quais não falam com ninguém real —  foi essa a expressão que ele usou depois de contar que estava há mais de seis meses sem sair com nenhuma mulher: “Ñ contei isso p ngm real”.

Já ela confessou-lhe que para as pessoas reais inventa um peguete ou outro, pois tem vergonha de assumir sua falta de sexperiência.

Sentem-se atraídos, desejam encontrar-se de fato, mas um fica esperando o outro dar um sinal que não aparece.

E, sem saber, agora os dois estão no centro, na mesma rua, caminhando em sentidos opostos. Daqui alguns segundos irão se cruzar pela primeira vez, uma dessas coincidências que alguém vai afirmar ser armação do destino e outro alguém irá classificar como uma possibilidade até bastante provável. Pouco importa, o fato é que estão a cinquenta metros um do outro.

Ele vem devagar e distraído, sem se importar com as pessoas. Ela caminha apressada, tentando desviar das pessoas que lhe atrasam. Agora estão a uns vinte metros de distância. Ele é alto, então ela o vê primeiro. Espreme os olhos para certificar-se. Sim, é ele, até que não é tão diferente da foto e se veste bem no dia a dia. Ele percebe um olhar fixo em seu rosto, acorda da sua introspecção e a primeira imagem que enxerga é a de um cabelo preto com várias mechas azuis. Claro que é ela e é linda mesmo.

Os olhos se encontram. O coração dela se acelera; o dele também. Têm dez metros para pensarem o que fazer. Que nervoso! Não enxergam mais ninguém ao redor; em seus universos particulares, a calçada é só deles, o que é uma merda, fica difícil passarem despercebidos. Cinco metros. Conseguem se livrar dessa ilusão, voltam a perceber a multidão ao redor, um calmante: sentem a situação de volta ao controle.

Dois metros. Instintivamente os dois desviam o olhar para o horizonte. Passam um pelo outro sem nenhuma magia.

Escolheram fingir não se ver. Ele aperta o passo, como se fugisse da vergonha, e lamenta a falta de coragem. Qual a dificuldade de dar oi? Ela diminui a marcha, aliviada: é melhor que as paixões de aplicativo fiquem no aplicativo.

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