Com ou sem rodinhas?

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Crédito: Pixabay

Dia desses fui à manicure. Pode parecer uma atividade normal, no entanto, junto à correria do dia-a-dia, rituais de beleza que somam mais de trinta minutos são os que primeiros têm saído da minha lista de prioridades. Nada contra quem os faça, mas entre pegar no sono no meio de uma leitura gostosa ou me trocar e ir até o salão e só voltar para casa duas horas depois, não preciso pensar muito para concluir minha preferência. Esta escolha é baseada em minha liberdade de aceitar que tudo bem não estarem impecáveis em prol da minha paz. Aliás, sempre a tenho preferido ultimamente. Sempre tenho preferido a mim.

Meu critério não vale somente para as unhas: em um mundo tão cheio de brigas e opiniões, por vezes prefiro não opinar. Não que as guarde, ou não as tenha, mas reservo o direito de manter o silêncio em prol da tranquilidade e do meu bom humor. E o melhor, tenho sentido um prazer enorme em me abster, seja numa discussão partidária em que prefiro me calar a vociferar uma bandeira enorme em que as regras e leis são impostas como um manual de boas maneiras ou em rituais simples como o das unhas. Muitos dirão: Você não tem opinião, é? Tenho um monte delas! Convide-me para um café com bolo quentinho  e algumas estarão livres por aí sem levantar a voz ou utilizar-me de um outdoor virtual para propagá-las. Brigar a troco de nada, além de cansativo, caminha em parceria com a escolha pela soneca de sábado à tarde.

Mas num sábado qualquer, lá pelas seis, foi diferente. Deixei a soneca de lado e me rendi as unhas. No salão, uma garotinha à espera da mãe tinha levado a bicicleta para passar o tempo enquanto a aguardava. Andava de uma ponta a outra no quintalzinho modesto junto à entrada principal. Voltava da metade do caminho, sempre. Refez o mesmo trajeto inúmeras vezes, fazendo a volta com apoio dos pés no chão. Pareceu-me que tinha aprendido recentemente, pois algumas vezes se desequilibrava. O pouco espaço do quintal e as advertências da mãe sobre tombos pela falta de prática na brincadeira não a aborreciam, pelo contrário, o sorriso que observava da janela ao meu lado, estava em harmonia ao fim da tarde e não aos meus olhos que teimavam em fechar. Nada mais importava à menina e não conseguia entender  por que aquela brincadeira simples me chamava tanta atenção.

Observei-a por alguns longos minutos naquele vai e volta sem fim. Até que algo me veio à mente: lembrei das minhas idas e voltas no quintal. De quando aprendi a andar de bicicleta primeiro em uma Caloi pequena, que ganhei de alguma outra criança e que foi substituída por uma amarela maior, também Caloi, no Natal de 89. A pioneira era verde e com rodinhas, e entre as idas e vindas da porta dos fundos até o portão da entrada, parava a bicicleta e fazia a volta com o apoio dos pés, assim como a menininha do salão. E lá segui por semanas, sentindo o vento correr pelas minhas bochechas rosadas pelo sol das manhãs antes da escola. Quanto mais rápido pedalava, mais livre me sentia sem me importar com as instruções da vó sobre possíveis tombos ou escorregões. Qualquer coisa era melhor que ficar presa na sala e não atingir a meta de andar sem as rodinhas o quanto antes.

A liberdade que revivi nas lembranças da infância é a mesma que sinto quando fujo de discussões ou opto pela minha paz de espírito. Afinal, como no programa tão popular nos anos 90, troco todas as opiniões monótonas e extremadas pela bicicleta da porta dois sem pensar muito.

 

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2 comentários sobre “Com ou sem rodinhas?

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