Na linha

A maior conquista da civilização é a fila.

Esqueça ONU, democracia, constituição, abolição da escravatura, Direitos Humanos, Estatuto da Criança e do Adolescente. Marcos da humanidade, com certeza, mas nenhum tão presente e fundamental em nossas vidas quanto ela.

Sem a fila, viver em sociedade seria impossível. A competitividade, que sempre deu o tom das relações, não teria contraponto. Valeria sempre a lei do mais forte, do mais inteligente, do mais rico, do mais preparado.

A fila mostra-se mais eficiente do que o Estado e a Justiça para equalizar as pessoas.

Eu até gostaria de saber se a fila foi uma invenção racional ou instintiva. Se foi ideia do primeiro homem de bom senso ou se o inconsciente coletivo buscou uma solução pacífica de forma natural.

Mas o importante, mesmo, é que o executivo bem sucedido, a morena gostosa, o padre, o policial – todos têm de respeitar a fila. Inclusive os idosos, que formam fila para quem não precisa de fila.

A gestante não está temporariamente isenta, apenas pertence à outra categoria – se no banco tiver dez grávidas, a barriguda terá de esperar sua vez. O mesmo vale às pessoas com deficiência e aspirantes a transplante de órgãos.

Somos todos iguais perante à Fila.

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Não vou ser hipócrita: é evidente que não gosto de esperar. Exatamente por isso reconheço a importância da fila. Ela me obriga a treinar a paciência com o velhinho que esqueceu a senha do cartão. Me faz enxergar que a minha urgência talvez nem seja tão urgente.

Dia desses, no supermercado, eu esperava ser atendido na padaria. Enquanto a pessoa à minha frente pedia seus pães, uma mulher loura colocou algumas compras num carrinho parado e ficou na boca do guichê – parecia preparada para a largada dos cem metros rasos. Quando a funcionária perguntou o que era para mim, a mulher se atravessou, pedindo dez cacetinhos. A moça do mercado, indecisa, me olhou, como se perguntasse “posso atendê-la na frente?”. Fui categórico: “Estou na fila” e pedi meus pães. A loira começou a resmungar em voz alta: disse que já estava ali, mas saiu para pegar “umas coisinhas”, reclamou da minha falta de educação e que não existe mais cavalheirismo.

A fila ensina a assumir responsabilidade pelos atos. Se esqueço de algo, não posso penalizar quem foi organizado para fazer suas compras. O ditado infantil é bem claro: saiu do ar perdeu o lugar.

Eu fui cavalheiro: respeitei quem estava atrás de mim.

O propósito da fila não é ser uma vantagem para ninguém, mas evitar desvantagem a todos. Ela nos nivela por baixo (por isso as pessoas a detestam), espanca nosso narcisismo e ainda diz: “Você não fez nada de extraordinário para merecer regalias”.

A fila me ensina a humildade, mostra que ninguém é especial. A fila me lembra que sou apenas mais um.

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