Caça aos ovos

A Páscoa era o feriado favorito de Vitinho. Nascido na véspera do Dia das Crianças e com um medo inexplicável do Papai Noel, ele não conseguia ver muita graça nos feriados favoritos das outras crianças pois, em outubro, ele ganhava apenas seu presente de aniversário e, em dezembro, ele tinha medo de dormir e acordar dentro do saco vermelho do invasor natalino.

Já na Páscoa era só alegria! Contava os dias para o domingo glorioso em que acordaria, colocaria seu chapéu de detetive (igual ao do Sherlock Holmes da TV) e sairia pela casa em busca dos ovos. Depois tinha aquele grande almoço em família e, de sobremesa, ele podia se esbaldar de chocolate.

Páscoa era o melhor dia! E esse ano seria ainda mais especial.

No auge de seus 7 anos e após ouvir rumores de que o coelhinho não existia, Vitinho decidiu que era hora de pegar o coelho no ato, provando a seus colegas que o entregador orelhudo de ovos era real. Passou toda a Semana Santa bolando um plano e separando os equipamentos necessários e, com a ajuda dos pais, espalhou diversas armadilhas de coelho pela casa. Havia sinos nas portas e janelas, arapucas que usavam cenoura de isca e até uma câmera programada para detectar movimento, mirando bem para a porta de entrada. O coelho não escaparia dessa vez!

A excitação era tanta que Vitinho não conseguiu dormir. Seus pais tentaram tranquilizá-lo, prometendo avisar se notassem alguma movimentação. Não adiantou. Assim que ouviu a porta do quarto de casal se fechar, levantou da cama, equipou-se com chapéu, lanterna e binóculo, saiu do quarto sem fazer barulho e foi para a sala esperar o visitante peludo.

Tentando não acender as luzes, escondeu-se atrás do sofá e esperou em silêncio enquanto pôde. Contudo, depois de trinta minutos infinitos, Vitinho ficou entediado e resolveu ligar a TV num volume bem baixinho, pra ajudar a se manter acordado. Procurou por algum canal com desenhos, mas naquele horário só o que achou foi um filme com uns adolescentes esquisitos tentando caçar um cara chamado Freddy. Deixou lá mesmo e voltou à missão. Esse coelho ia ver só uma coisa! Pegou o binóculo, apoiou mãos e cabeça no braço do sofá e mirou as janelas. Havia uma luz piscando na rua e Vitinho apertou os olhos para tentar enxergar melhor. Deu uma piscada longa e depois outra. Uma voz distante o avisava sobre os perigos de dormir e ele tentava escutar, mas o peso das suas pálpebras estava difícil de suportar.

Cochilou.

Quando se deu conta, a luz cintilante do poste dera lugar ao roxo-alaranjado do sol nascente e Vitinho pulou do sofá, desesperado com a perspectiva de ter perdido o coelho. Olhou ao redor e tudo parecia estar no lugar, exceto por pequenas manchas no chão. Pegadas de coelho. Droga!

Mas espera um pouco, essas pegadas estão diferentes. Nos outros anos, o coelho deixou rastros brancos, quase como se tivesse caído na farinha. Dessa vez ele deve ter escorregado na groselha, de tão vermelhas e viscosas que estavam as marcas. Se o coelho não fugiu ainda, mamãe vai brigar com ele por ter feito toda essa meleca. Ah, isso não importa agora. Vamos à caça!

Conforme seguia a trilha rubra, a ansiedade aumentava. Algo estava errado. As pegadas aumentavam de tamanho a cada passo e, ao chegar na cozinha, eram tão grandes quanto pés humanos. Outra coisa estranha era o estado da cozinha. O coelho, que devia estar com fome, fez uma baita bagunça. Talheres e panelas estavam espalhados pelo chão, junto com uma poça de groselha em frente à geladeira. Provavelmente foi aí que o coelho se sujou. Mamãe vai mesmo acabar com a raça dele.

Depois de ver que não havia nenhum ovo a ser descoberto no cômodo, Vitinho voltou a seguir os rastros do coelho, que se converteram numa longa linha vermelha, partindo da grande poça no chão e continuando pela escada que levava aos quartos. Nesse ponto, a empolgação dera lugar ao medo e o menino pegou uma das panelas do chão, caso precisasse se defender ou bater em alguém. Com o coração disparado, subiu a escada no maior silêncio possível. Chegando ao andar superior, abafou um grito ao ver arranhões profundos nas portas. Com medo do que encontraria no próprio quarto, onde a trilha vermelha parecia acabar, o menino juntou coragem e entrou na suíte dos pais. Exceto pelos respingos vermelhos na parede, tudo estava arrumado, inclusive o closet e o banheiro. Era como se ninguém tivesse dormido ali. A preocupação aumentou.

Com a panela em riste, chamou pelos pais, tomando cuidado para não falar muito alto. Nenhuma resposta. Voltou ao corredor, temendo o que encontraria na porta número dois. Ouviu seu nome, bem baixinho, como se chamassem de outra dimensão. Parecia vir do seu quarto. Escutou novamente, agora um pouco mais alto. Era a voz da mãe. Encorajado pelo timbre familiar, venceu o medo, abriu a porta e ficou paralisado. De pé, além da entrada, estava a personificação do pavor: um coelho gigante, com garras que pareciam facas, pele queimada, olhos vermelhos e dentes afiados. A criatura demoníaca o encarava com fome de sangue mas, quando abriu a boca, disse com a voz suave da mãe algo como “Vítor, vem procurar os ovos”. E antes que o menino pudesse reagir, o monstro já estava sobre ele, o hálito úmido a milímetros de seu rosto.

Gritando de pavor enquanto era agarrado pelos braços, Vitinho abriu os olhos e deu de cara com a mãe, que tentava acalmá-lo dizendo que foi só um pesadelo. Mas era tarde demais.

A Páscoa, assim como os outros feriados, estava arruinada para sempre.

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