Recurso contra a decisão que expulsou Adão e Eva do Paraíso

No princípio era o verbo. Em outras palavras, no princípio era uma língua estranha, cujas orações não possuíam nem sujeitos nem objetos, apenas o verbo, intransitivo; e se existe uma língua, existe quem fala a língua, senão é uma língua morta. Mas a língua capaz de criar vida desde o princípio somente foi falada por Deus. Portanto, no princípio, era o verbo e um sinônimo, porque Deus é o verbo encarnado.
No entanto, embora soubesse a língua, Deus, por um período inimaginavelmente longo, nunca falou um A, como se o sujeito fosse separado do verbo por vírgula. Os motivos do silêncio absoluto, do alfa à criação do mundo, são um mistério, só Deus sabe. O resto são especulações científicas.

Porém, eis que um dia, por razões também desconhecidas, Deus resolveu falar, e falou:
“- Faça-se a luz.”
E a luz foi feita. Assim está registrado na introdução do Livro do Gênesis, com aspas e tudo; e se antes era só o verbo, juntamente com a luz, Deus criou também o substantivo, o artigo e o índice de indeterminação do sujeito, indicando que a criação do mundo pode ter sido terceirizada.
“- E Deus viu que a luz era boa”.
As aspas dessa vez são minhas, porque a afirmação é de um sujeito oculto que parecia conhecer da intimidade de Deus. E por esta afirmação, pode-se cogitar que Deus teve dúvidas sobre o resultado final de sua obra. Mas, graças a Deus, a luz era boa e “Deus chamou à luz dia, e às trevas noite. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o primeiro dia” [Gênesis].
Após passar uma eternidade em um período sabático, Deus se deu por satisfeito de ter criado tão luminosa obra, e naquele dia não fez mais nada, porque Deus também não é de ferro.
No segundo dia, Deus fez o céu, a terra e o mar; no terceiro, fez toda a flora; no quarto, fez o sol e as estrelas; no quinto dia, fez toda a fauna; e, finalmente, no sexto dia, que corresponde à sexta-feira dos tempos atuais, Deus criou o homem:
“- Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”.
Note-se aqui um detalhe interessante, na criação do homem, Deus usou, pela primeira vez, a regência verbal na primeira pessoa do plural – não é criação minha, está lá no Gênesis. Isso pode significar que a criação do homem exigiu tamanha responsabilidade que Deus participou dela “pessoalmente”, juntamente com outros sujeitos ocultos, dos quais o homem foi feito à imagem e semelhança, tal qual Deus. Tudo isso são mistérios de Deus! O resto são especulações religiosas.
E só depois de ter criado o homem, foi que Deus percebeu que não era bom ele ficar sozinho. Pois Deus, como um bom pai, sempre soube o que é melhor para os seus filhos, mesmo que Adão nunca tenha feito pedido algum em oração – ou pedido diverso. O homem depois passou a chamar a vontade de Deus de destino, sem saber muito bem, até hoje, o que isso significa.
Enquanto Adão dormia, Deus tomou-lhe uma costela e fez a mulher, e a chamou de Eva.
– O que Eu uni o homem não separa. – Crescei-vos e multiplicai-vos. – Ide em paz que Eu vos acompanharei – Devem ter sido as palavras de Deus na cerimônia que oficializou o primeiro casamento da história, arranjado por Ele.
O casal foi viver feliz para sempre no Éden, onde tudo era permitido. Mas, como toda regra tem exceção, havia uma proibição: comer o fruto de uma árvore.
De outro modo, pode-se dizer que a primeira lei penal da história continha um único artigo. Deus poderia ter tipificado o homicídio, o roubo, o furto ou o uso da maconha. Mas, para começo de história, preferiu proibir o consumo da maçã.
O fato é que a vontade do legislador é incompreensível, pois, sabe-se que a maçã possui diversas propriedades benéficas à saúde, evita o envelhecimento precoce, protege os dentes de cáries e muito mais. Além disso, com a maçã, prepara-se pratos dos deuses como uma tarte tatin, strudel e uma apple pie.
Em uma interpretação teleológica, não se encontra nenhuma razão lógica que justifique a criminalização da maçã, cujas variedades existem aos milhares (gala, fuji, argentina, verde, etc.), nem mesmo por questões comerciais, que nunca houve no paraíso.
Adão e Eva, mesmo sem compreender os desígnios do Pai, consentiram, a princípio, com tal restrição alimentar. Afinal, o que é o fruto de uma árvore quando se tem um banquete à disposição com todo tipo de caça, pesca, frutas, verduras, leguminosas e folhas?
Deus contemplou toda Sua criação e, como não consta nenhum registro de trabalho na segunda segunda-feira da história, Ele descansou a partir do sétimo dia, – atente-se novamente para o detalhe – não foi no sétimo dia, como se habituou a dizer, mas a partir do sétimo dia. Deus dormiu, como um animal saciado, na paz Dele mesmo, e não fez mais nada.
No início, como sempre, tudo é novidade. Adão e Eva se distraíam com as coisas do paraíso, passeavam pelados por aí, puros feito índios selvagens, e realizavam relevante trabalho científico de catalogar e dar nome a todo tipo de animal, planta e rocha.
Com o passar do tempo, como era de se esperar, eles foram ficando entediados, já não havia mais tanta curiosidade para conhecer tantas novidades do vasto mundo de Deus. A naturalidade com que sempre louvavam as maravilhas da criação se tornou um vício atávico, Como normalmente acontece com os fiéis de Deus.
Adão e Eva passavam muito tempo à toa e, como se sabe, mente vazia é oficina do diabo. A única proibição no paraíso começou a torturá-los, cada vez mais e mais à Eva do que Adão, é bem verdade. E, se Eva parecia morrer de curiosidade, parecia também temer morrer se comesse a maçã.
O Gênesis, a partir desse momento, passa a narrar os fatos como uma fábula. Pois surge na história uma serpente, astuta, que falava enquanto colocava a língua para fora da boca.
A serpente, que sempre estava por perto, procurava por Eva, esporadicamente para não parecer insistente e a insistência revelar segundas intenções:
“- É verdade que Deus vos proibiu comer do fruto de toda árvore do jardim?”
A mulher respondeu-lhe:
– Podemos comer do fruto das árvores do jardim. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: Vós não comereis dele, nem o tocareis, para que não morrais.
– Oh, não! – Tornou a serpente – vós não morrereis! Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal.” [Gênesis]
Note-se na fala da cobra algumas curiosidades, primeiro que ela também usa a conjugação verbal do mesmo modo que Deus; e depois, se ela estivesse mesmo falando a verdade, Deus é quem deveria recomendar o consumo da fruta. Pois, tratar-se-ia de uma planta de poder, como dizem os xamânicos, capaz de expandir a consciência sobre o bem e o mal.
E pela reação da Eva após comer a maçã, a serpente parecia mesmo ter razão. Porque a mulher foi tomada de uma vergonha que a fez cobrir as suas intimidades com uma folha de videira, vendo maldade onde não via antes, mesmo não havendo outros homens por ali que ela pudesse tentar ou que pudessem tentá-la. Adão era o único homem no éden e Eva já era casada com ele, na presença de Deus. Não havia mais nada a esconder, nem moral para se importar.
– Que criatura louca! – Pode ter pensado a serpente se divertindo da mulher que estava tomada de um profundo sentimento de culpa.
Mas, se Eva se arrependeu, cabe então uma questão: por que diabos ela depois ofereceu a maçã a Adão? Mistérios femininos!
A amada esposa levou a suculenta maça até a boca do marido, que não resistiu à tentação, e a comeu. Deus, que é onipresente, mesmo estando dormindo, viu tudo e acordou de súbito, ofegante, como quem acorda de um pesadelo, sentindo o golpe da traição no peito.
De repente, raios e trovões tremeram todo o paraíso. Formou-se um grande teatro, digo, tribunal.
O reino de Deus do Gênesis se compara a uma monarquia absolutista, cujo Rei, o Todo Poderoso, concentra em sua própria pessoa, por direito divino, todos os poderes do “estado”. Deus é ao mesmo tempo legislador, juiz supremo, promotor, polícia, executor da pena e ainda tinha influências sobre a imprensa.
Adão e Eva não tinham advogados, fizeram eles mesmos a defesa em causa própria. O que, quase sempre, não é recomendável, porque o envolvimento emocional com a causa prejudica a técnica. Senão, eles poderiam ter alegado, por exemplo, o impedimento de Deus, devido a relação de parentesco entre o Juiz e os réus, ou ao menos uma suspeição.
Ultrapassadas as questões preliminares, o Juiz inquiriu os réus sobre os fatos por mera formalidade, vez que já havia formado previamente a convicção da autoria e materialidade do crime, bem como já havia estipulado as penas.
– Vocês comeram o fruto da árvore proibida? – Deus sempre foi de poucas palavras.
Adão, delator, falou primeiro, dizendo que a culpa era da mulher. Nesse momento, pode-se imaginar Eva fulminando Adão com um olhar de decepção. Eva, logo em seguida, usou a mesma estratégia, tentou eximir-se de qualquer responsabilidade culpando a serpente.
Se a serpente estivesse por ali, escondida atrás de um monte de pedras, assistindo ao julgamento, podia muito bem ter se defendido:
– Inclua-me fora dessa, amiga. Tu és bem crescidinha. A vítima do estelionatário sempre pensa que pode levar vantagem no golpe.
Mas Deus acatou a questão de ordem e decidiu incluir a serpente no julgamento, condenando-a a passar toda eternidade arrastando o ventre no chão e por todos os dias que tivesse vida comeria pó.
Se em tese essa pena parece dura, em verdade em verdade, ela é inócua, pois a condição da serpente em nada mudou, porque a serpente sempre se arrastou com o ventre no chão comendo pó. E não se pode dizer que Deus, sendo um justo juiz, foi injusto com ela, porque Ele a escolheu para interpretar a vilã da história e, diga-se de passagem, a atuação dela foi perfeita.
Em seguida, em um rito sumaríssimo, Deus passou à condenação de Adão e Eva: o banimento do éden para sempre, incluindo todos os seus descendentes.
Não se pode deixar de admitir que Deus, onisciente, já não teria previsto, antes mesmo da criação do mundo, que Adão e Eva comeriam a maçã. Configurando, portanto, um flagrante armado, o que fulmina por completo qualquer prova do crime, segundo a doutrina do fruto da árvore envenenada.
Além disso, é impossível cogitar que Adão e Eva receberam a sentença resignados, embora não conste nenhum protesto na ata da audiência, diga-se, no livro do Gênesis, repudiando com veemência as acusações que lhes eram imputadas.
Sendo assim, até o presente momento, Deus ignora por completo todas as falhas contidas no processo que, conforme sobejamente evidenciado, impossibilitaram, data maxima venia, a ampla defesa, o equilíbrio do contraditório, o julgamento equânime, justo e legal, nos termos de toda legislação aplicada ao caso, conforme se observa pelas seguintes razões desta apelação:
Adão e Eva são inocentes, eles não pediram para ser criados e Deus ainda os fez fracos e ingênuos. Portanto, foi Deus que criou toda a confusão.
Na lei de Deus, se havia a previsão do crime, não havia a previsão da pena, o que contraria o princípio da legalidade.
Deus sequer expôs os motivos pelos quais concluiu pela aplicação da pena; e a ausência de motivação gera nulidade da decisão, que deve ser expurgada do ordenamento jurídico.
É patente a nulidade do processo devido ao cerceamento do direito de defesa, vez que a decisão é eivada de caráter subjetivo incapaz de se submeter ao enfrentamento do embate dialético.
Em respeito ao princípio da individualização da pena, não cabe estender a punição dos réus aos seus descendentes, fato que demonstra o abuso de autoridade, ou ao menos uma juizite.
As circunstâncias atenuantes foram totalmente ignoradas, quais sejam, os réus são primários, vez que se trata do pecado original, e possuem bons antecedentes, pois sempre obedeceram ao Pai com respeito e devoção.
Adão e Eva são réus confessos. Com efeito, caso não sejam inocentados, o que se admite apenas por hipótese, eles merecem uma redução da pena.
O banimento tem a finalidade de repressão política, o que não se aplica ao caso. Ainda mais, a expulsão da casa do Pai é moralmente reprovável.
Se, àquela época, não se podia exigir o amor e o perdão aos filhos, ensinamentos esses que somente passaram a viger a partir de Jesus Cristo, muito depois da criação do mundo (tempus regit actum), apela-se à Vossa imensa misericórdia para que se digne em revisar a pena, por dever de lealdade e justeza e para que se faça a devida reparação histórica, haja vista a gravidade dos fatos e as consequências danosas que alcançam a humanidade até os dias atuais.
Por todo o exposto, venho, mui respeitosamente, à presença de Vossa Excelência, por inexistir tribunal superior, smj, na condição de um dos herdeiros de Adão e Eva, para requerer:
1) A anulação do julgamento;
2) Uma indenização por danos morais, em quantia a ser fixada por esse Douto Juízo;
3) A retificação da Bíblia para que faça constar a inocência dos réus;
4) O restabelecimento do “status quo” anterior, com o retorno imediato de todos os descendentes de Adão e Eva ao Paraíso, inclusive este filho de Deus que subscreve esta oração, quer dizer, petição.
5) O pagamento de honorários advocatícios.

Termos em que, respeitosamente,
Pede e espera deferimento.
Brasília, 19 de dezembro de 2016

 

Daniel Fama | Fotografia

 

 

Euler Rodrigues, aquariano, demasiado aquariano.

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6 comentários sobre “Recurso contra a decisão que expulsou Adão e Eva do Paraíso

  1. Euler amei o texto. De uma criatividade ímpar e abordagem super criativa. Precisamos dessa inventividade. O pequeno toque de humor caiu super bem. Continue escrevendo. Bjs

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  2. Euler amei o texto. Obrigada por me proporcionar leituras maravilhosas e ricas em conhecimentos e por dividir com todos nós esse seu momento íntimo!

    Por muito mais textos assim…

    Um abraço.

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