Feliz aniversário

Pela primeira vez na vida ganhei um presente de aniversário do meu irmão: um pacote de balas. Não, ele não estava me trolando, pelo contrário. Foi carinhoso o suficiente para escolher a Butter Toffees sabor café, minha preferida; e teve a dignidade de pagar do próprio bolso. Não, eu não estou sendo irônico. O Mano traz dentro de si uma particularidade que torna esse presente especial: a esquizofrenia.

Esse transtorno lhe impôs, além de um tratamento duro até que a morte o separe dela, muitas limitações, entre as quais a dificuldade de amadurecer. Não vou especular se o complexo de Peter Pan é característica do transtorno ou resultado da proteção e do controle excessivos aos quais ele é submetido há 25 anos – não sou psiquiatra tampouco especialista no assunto. Só sei que o Mano não consegue assumir responsabilidades nem honrar compromissos que dependam exclusivamente dele próprio. Vive transitando entre extremos: ou é paralisado pelo medo de fracassar, de não conseguir fazer nada certo por ser doente; ou sequer lhe ocorre que um homem de 45 anos teria que tomar determinadas atitudes. É comum sairmos para fazer qualquer coisa (seja andar de metrô ou tomar um sorvete) e o Mano nem se preocupa em pagar o que consumiu; quando pergunto “Não vai se coçar?” a resposta é sempre a mesma e sempre flutua entre a traquinagem e a inocência: “Puxa, Maninho, não trouxe a carteira”. Não, ele não é escorado. É um menino em corpo de homem.

Claro, a Mãe, o Pai e eu incentivamos esse comportamento toda vez que pagamos a conta, toda vez que o protegemos de interagir com os outros devido ao seu pânico das pessoas, toda vez que fazemos as tarefas mais complexas por ele ao invés de continuar ensinando-o, apesar da desesperança.

Talvez seja uma forma de expiar a culpa que sentimos por não nos ter acontecido o mesmo que a ele. Talvez seja mais fácil para cada um de nós atuar por ele, pois encarar de frente as suas limitações ainda dói.

O que é a realidade senão uma sequência neurótica de talvezes?

E em meio ao meu ceticismo e às minhas limitações como irmão, ele me aparece com um presente. Tanto faz qual o objeto. E pouco importa que tenha sido para mim. O importante, de verdade, foi que ele sentiu a necessidade de presentear alguém, de retribuir algo. Isso é crescimento emocional. Isso é entender a lógica real das relações, livre da paranóia de que o maquiavelismo move o mundo.

Pela primeira vez em 25 anos vi o Mano ir sozinho até onde ele conseguia.

E qual seria o sentido da vida senão chegar até onde se pode chegar?

gift.jpeg

Anúncios

2 comentários sobre “Feliz aniversário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s