S & M

“E se nós tentássemos algo novo, amor?”

Foi assim que me meti nessa enrascada. Vejam só, a gente pode conviver 30 anos com a mesma pessoa e, mesmo assim, se surpreender com suas fantasias. Como eu, que sempre achei a Clara uma mulher caseira e sem muito interesse em coisas físicas. Em resumo, a última pessoa da qual eu imaginava receber uma proposta dessas. É claro que tive que aceitar!

Não que a ideia tenha me agradado mas é só que, quando se está casado há tanto tempo, qualquer quebra de rotina é bem-vinda. Na melhor das hipóteses, vamos nos divertir um pouco. Na pior, nunca mais entro nessa. Então tiro meus apetrechos do porta-malas e saio do estacionamento para me encontrar com a Clara no lugar indicado, com um misto de enjôo e excitação conferindo um ar surreal ao trajeto.

Por fora, o local parecia inofensivo. Podia se passar por uma casa qualquer ou, no máximo, uma clínica de beleza. Só notei a encrenca quando entramos e pudemos ouvir algumas respirações ofegantes em meio à música. Onde foi que me meti?

“Pronto, amor?” perguntou ela empolgada.

“Nasci pronto!” respondi, tentando manter o pouco de masculinidade que ainda me restava. Que ótimo, mal entrei e já me sinto intimidado. Só espero conseguir manter alguma dignidade ao final desse tal de Pilates. Se pudesse voltar atrás, não teria pulado os exercícios de alongamento na educação física. Acho que eles vão me fazer falta agora.

Caminhamos juntos até os vestiários, passando por equipamentos que certamente foram concebidos para torturar prisioneiros de guerra. Em uma cama com barras metálicas, uma loirinha que não devia ter mais de um metro e sessenta se pendurava como uma contorcionista, numa posição nada anatômica. Que ótimo! Me pergunto se no vestiário tem alguma janela por onde eu possa fugir. Talvez ainda haja tempo…

Droga, nenhuma janela grande o bastante. Só me resta encarar o destino. Me junto à Clara, que está conversando com a loirinha. Aparentemente ela é que vai nos treinar. Fodeu! Ainda se fosse outro cara, tudo bem. Eu podia zoar e dizer que macho mesmo não tem toda essa elasticidade. Mas perder a pose na frente de duas mulheres já é demais! E pior, agora é que não dá mesmo pra fugir. Melhor correr o risco de demonstrar minha fraqueza física do que deixar claro que, além de tudo, sou um covarde. Respiro fundo, rezo um Pai Nosso, agradeço que meus amigos não podem me ver agora e vou!

Até que não começo mal. Alongo as pernas com a ajuda de um tecido pendurado no teto e quase não sinto dor. Depois puxo os braços de encontro a uma barra e também parece ir tudo bem. Inspiro e expiro conforme as instruções e começo a me animar. Acho que vou sobreviver, afinal. A loirinha me chama então para uma cama deslizante e me sinto no topo do mundo quando consigo fazer uma série infinita de exercícios para panturrilha. Dali de onde estava, olhei pro lado e vi a Clara abrindo e fechando as pernas em movimentos circulares e me senti empolgado como há muito não me sentia.

Pena que felicidade de pobre dura pouco. Percebendo minha satisfação, aquela mini-sádica da instrutora resolveu apimentar as coisas e botou uns abdominais sofridos no meio da jogada. Cama deslizante vai, cama deslizante vem e eu tendo que levantar o tronco enquanto o mundo se mexe. Moça, eu tenho anos de barriga de chopp e histórico de labirintite na família! Tu quer me matar? Saio tão moído da cama deslizante pra cama fixa que nem sei o que tô fazendo com os elásticos que ela me manda segurar. Acho que está certo pois ainda não levei bronca. Ó céus, de novo esse negócio de usar o abdome. Cadê a Clara? Vou matar essa mulher! Ali ela, toda feliz, subindo e descendo daquele trambolho. Aposto que essa demônia loira pegou leve com ela. É preconceito porque sou homem, só pode ser!

Ufa, tá acabando. Só mais cinco minutos finais de alongamento. É só sentar aqui e tentar alcançar meu pé, acho que não deve ser difícil. Um, dois… Ai meu pai, por que minha barriga tá tremendo desse jeito? Quatro, cinco… Caralho, quantas repetições eram mesmo? Seis, nove, DOZE LADRÃO! Opa, não é truco, onde é que eu tava? Ah, sim. Nove, minhas costas, DEZ! Pega essa, loira sádica! Você tentou, mas eu sobrevivi e sou o rei do universo! Quero ver quem vai me zoar agora. Se bobear nem o Artur que é marombeiro ia aguentar o que aguentei hoje. Acho até que estou mais alto.

“E aí, amor, tá tudo bem? Gostou?” perguntou Clara com o olhar cheio de expectativa.

“Adorei. Podemos fechar o plano semestral se quiser”, respondi de pronto, sob efeito de endorfinas. É certeza de que amanhã não vou conseguir me mexer e que não devia voltar aqui nunca mais, mas o que posso fazer?

Quando se está casado há tanto tempo, qualquer quebra de rotina é bem-vinda.

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3 comentários sobre “S & M

  1. Ju, to rindo aqui. Lembrarei do seu texto na minha próxima aula de Pilates. Muito bom!
    Ps. O efeito da endorfina é mesmo viciante ; )

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    • Super viciante! E não sei se é a respiração ou os alongamentos, mas parece que no Pilates fica mais nítido ainda. Saio bem louca das aulas hehehehe

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