No povoado de Deus-bem-sabe

O quintal da casa era dividido em cinco partes. Isso fora o galinheiro, que pertencia a todo mundo e ao mesmo tempo a ninguém, porque o pai só deixava as crianças entrarem quando tinha que trocar a água, lavar a bacia, limpar o esterco, catar os ovos ou correr atrás de uma galinha. Da mangueira para o muro a parte era de Diquinha. Da goiabeira para o primeiro mamoeiro, de Zeca. Do segundo mamoeiro para o tanque, de Gico. Do outro lado do mesmo tanque para a pitangueira, de Filó. Nenhuma parte ficava pregada uma com a outra para não gerar confusão. E dos jarrinhos de alecrim para o abacateiro, a parte era de Caçula.

Os meninos iam para a escola de manhã cedo, o pai para a roça depois de acordar os cinco filhos, coar o café, cozinhar milho, macaxeira ou batata doce, deixando tudo no ponto para eles comerem antes de sair.

Lá para meio dia-uma hora, Seu Zé Francisco voltava da roça, fazia o almoço, dava de comer ao cavalo, às galinhas, ao papagaio, e deixava dito para alimentar o cachorro com o osso e as sobras. Ditava as ordens antes de sair e entregava para a vontade de Deus que as crianças fizessem tudo direito. O Deus de Zé Francisco se chamava Dona Adenólia, uma velha fuxiqueira que morava muro com muro e dava conta da vida de todos os moradores de Deus-bem-sabe. Ô velha maldita.

Zeca levava um ano de vantagem de Diquinha. Considerando o pai que tinham, um ano a menos, ao contrário do que se pensa, era vantagem. Não muita, mas era.

Todo dia depois do almoço, Zeca cochilava enquanto a meninada voava para o quintal. Vendo a correria dos irmãos, ele logo ameaçava que ninguém podia mexer na sua parte enquanto estivesse ausente, queria ver só quem ia apanhar do pai se ele dedurasse. Mas dizer as coisas para Diquinha era mesmo que nada. Diquinha era uma peste.

Zeca tinha tamanho e idade de um molecote, mas sonhava feito gente grande. Antes do avô morrer o ensinou a curtir o couro e a bordar as celas que Gico continuou fazendo desde que aprendeu o ofício. Gico também era um frangote, mas por ser o mais velho dos irmãos, adquiriu responsabilidade.

Ninguém suportava Dona Adenólia, especialmente Diquinha, que sendo culpada ou não das coisas, era a que mais apanhava do pai, porque comandava os outros e falava com petulância. 

Teve um domingo que Dona Adenólia resolveu fazer visita. Velha enxerida. Chegou tão perfumada que estava fedorenta. Seu Zé Francisco mal abriu a porta, Dona Adenólia foi entrando, sentando e esticando as mãos para as crianças pedirem benção. Na vez de Diquinha:

– Toma benção para a tia.

– Não.

– Toma benção para a tia.

– Não.

– Zadica. Toma benção para Dona Adenólia.

– Eu não.

Dona Adenólia fez uma cara para o Seu Zé Francisco, que o homem se sentiu obrigado a tomar uma providência de pai. Levantou a filha pela orelha, agarrou a mão de Dona Adenólia, botou na boca de Diquinha pra ela beijar e repetiu: to-ma ben-ção pa-ra do-na Adenólia, que estou mandando.

Diquinha engoliu o cuspe e beijou.

Zeca levava meses bordando a cela de uma encomenda que chegou por carta. Gico e o pai se entenderam num preço, mandaram Caçula botar a resposta do valor no correio e não demorou nem cinco dias para chegar um envelope com o adiantamento e a notícia de que os donos da cela seriam seus vizinhos. Quem dera Deus eles comprassem a casa de Dona Adenólia e ela se mudasse para o quinto dos infernos. Os cinco irmãos seriam capazes de bordar quantas celas fosse preciso até mesmo de graça, para se livrar de Dona Adenólia, qualquer vizinho seria melhor que ela. Que sonho.

Diquinha amava a rua. Gostava de andar de bicicleta e fazer novas amizades para ampliar seus horizontes, coisa que Caçula não entendia nem fazia questão contanto que ganhasse alguma coisa em troca de seu silêncio. A pequena de boba não tinha nada.

Filó era esfomeada. Só pensava em comida. Estava careca de saber que manga verde com sal acaba com o fígado, mas comia escondida. Ora se Filó ia se preocupar com o fígado, sabe nem onde fica isso no corpo ou para que serve.

Naquela tarde Zeca deu os avisos de sempre e foi cochilar. Gico sentou no chão e se encostou no tanque para fazer a tarefa da escola, para se livrar logo. Caçula ajudou Diquinha a tapar o buraco do muro que limitava a sua parte, por onde Dona Adenólia espiava tudo, com certeza. Enquanto as duas carregavam a bicicleta devagarzinho para não chamar a atenção de Gico nem acordar Zeca, Filó veio da cozinha com bacia, faca, colher de pau e todo tipo de tempero, pegando as duas no flagra.

– Para onde é que vocês pensam que vão? Vou contar para papai se não me levarem.

– Eu vou procurar descobrir se é Dona Adenólia que vai se mudar ou se é Seu menino.

– Papai não gosta de tu chamar Seu Whashington de Seu menino, ele já disse isso umas trinta vezes. Eu quero ir.

– Fala baixo. Eu vou sozinha. Vocês ficam brincando na parte de Zeca na direção daquele outro buraco do muro, e de vez em quando vão lá na minha parte e voltam, que é para a velha achar que estamos todos aqui. Podem pegar minhas latinhas, mas não bota água dentro!

Prontamente Filó e Caçula entraram na parte de Zeca, aproveitaram para pegar umas goiabas, brincaram de comidinha e fizeram a maior bagunça. Diquinha caiu no mundo falando com a vizinhança inteira. Dali a uma hora e meia Zeca acordou e foi direto para o quintal. Chegando lá encontrou tamanha sujeira, apontou a vista para a parte de Diquinha e virou para as irmãs, que diziam ao mesmo tempo que foi Diquinha que mandou. Com muita raiva Zeca tomou fôlego.

– Cala a boca as duas.

– Tu não é meu pai

– Nem meu.

– Se eu contar para papai vocês duas vão levar uma surra daquelas, quer ver?

– Mas Diquinha disse…

– Eu sei muito bem o que Diquinha disse. Ela vai ver o que é bom para tosse. Eu vou voltar para a rede, vocês não vão contar para ela que eu acordei, faz de conta que está tudo normal. Se vocês não contarem para ela, eu não conto para papai.

– Tá, mas a gente pode continuar brincando aqui?

– Só não trisca nesta cela. Deus me livre se sujar o bordado.

Não demorou vinte minutos Diquinha chegou, guardou a bicicleta, botou as meninas para arrumar a bagunça da parte de Zeca. E deu uma ajudinha, é claro. Tudo correndo nos conformes até seu pai chegar e Zeca cochichar no ouvido dele. Seu Zé Francisco acomodou o cofo de milho no chão da sala e foi direto para a mesa, puxou uma cadeira e encarou Diquinha.

– Pega uma folha de papel almaço e te senta bem aqui.

Diquinha previu o que ia acontecer, coitada.

– Engole o choro, Zadica!

– Odeio que me chamem de Zadica.

– Tu disse alguma coisa?

– Não.

Se Zeca estava pensando que isso ia ficar assim, ele ia ver só uma coisa.

– Pronto, agora escreve 100 vezes, bota o número aqui na borda, escreve 100 vezes: “Não devo sair sem a permissão do meu pai”.

– 100 vezes? 100 vezes é muito, pai!

– 250, então. Para procurar me respeitar.

– Mas pai… Não vai caber isso tudo.

– Amiúda a letra, Zadica, te vira para caber. Senta direito!

Daí umas horas Diquinha cochilava por cima do papel fazendo o maior esforço para equilibrar a cabeça no pescoço: Não dev________missão____meu________pai.

Zeca, que com muito gosto tinha ficado responsável por vigiar se a irmã estava fazendo tudo certo, foi na pontinha dos pés em sua direção, deu dois tapas no pé do ouvido dela: tuuuuuuummm

Diquinha gritou bem alto e deu-lhe um tabefe entre a bochecha e o pescoço, porque pegou de mau jeito. Zeca se atracou com ela, os dois rolaram no chão, Gico se meteu para desapartar, Filó torcia contra, a favor, contra, a favor. Caçula começou a chorar. A chorar não, a berrar, porque sua voz era estridente e dava para ouvir no bairro todo. Coitada da vizinha nova que não sabe o que lhe espera. Sim, era uma vizinha, Deus ajude que não seja fuxiqueira como Dona Adenólia, era só o que faltava uma de cada lado para acabar com suas vidas, como se não bastasse a traição que já havia dentro de casa entre os próprios irmãos.

Uma surra conversada, Seu Zé Francisco pegou um por um dos envolvidos e os enfileirou, não do menor para o maior de tamanho, mas em ordem crescente de idade. O mais velho levava uma palmada a mais que o mais novo – essa era a vantagem, o que deixou Zeca extremamente satisfeito e Diquinha remoendo internamente: Tu vai me pagar por isso.

Assim que foi dada a lição, Seu Zé Francisco mandou Gico botar todo mundo para dormir, não queria ouvir sequer um pio mais naquele dia. Depois de um dia inteiro de trabalho ainda ter que chegar em casa e encontrar isso; é muito castigo um homem sem mulher, esses meninos sem mãe, tanta desgraceira na vida de uma pessoa. Deus ajude.

De madrugada o desassossego vinha com uma tempestade cheia de trovão, mesmo assim a família dormia em sono profundo. Menos Diquinha. Movida pela sede de vingança – Caçula também não entendia isso, mas tampouco fazia questão de entender – foi até a caixa de ferramentas de Gico, pegou um estilete com a lâmina bem amolada, e sem guarda-chuva nem nada se meteu debaixo d’água, passou pela mangueira, pelo primeiro mamoeiro, mandou o cachorro voltar para dentro, o papagaio calar o bico, entrou na parte de Zeca e foi direto para a cela. Fez um rasgo com a gilete duma ponta a outra do bordado. Zeca queria morrer quando viu. Ela bem que avisou.

Embora o dia tenha amanhecido lindo em Deus-bem-sabe, como há anos não acontecia, Diquinha levou outra surra conversada. Mas Diquinha apanhava para tudo: estudar, banhar, quando fazia besteira, tudo. Porque Diquinha era uma peste.

Em Deus-bem-sabe domingo é dia de descanso. E de visita. Seu Zé Francisco distribuiu as tarefas entre os filhos. Gico carregou o cofo para a cozinha. Filó e Caçula descascaram e ralaram o milho. Diquinha preparou a massa e Zeca untou a forma.

Seu Zé Francisco limpou o quintal, o galinheiro, e com a ajuda de Gico fez um balanço de madeira e o pendurou num galho forte do pé de abricó, que ficava no meio das cinco partes do quintal.

De repente alguém bate na porta. Deve ser Dona Adenólia. Ô velha desocupada.

– Vai lá.

– Vai tu.

Sem ouvir os cochichos dos filhos, Zé Francisco passou por eles para abrir. Uma voz diferente deu bom dia. Diquinha foi a primeira que correu para a sala. Gico e Zeca entraram depois das irmãs que seguiram Diquinha, os dois mortos de medo. Cela nova de couro bom tem, mas o adiantamento foi para uma boa e bordada.

A nova vizinha se chamava Angélica, tinha um filho da idade do Zeca, que para fazer amizade pediu à mãe que lhe deixasse aprender a bordar couro, já que um terrível incidente os havia feito atrasar a entrega. A mãe não queria incomodar seu Zé Francisco com mais uma criança para ele dar conta. O bolo assado estava tão cheiroso que atraiu Dona Adenólia, que tomando a liberdade de convidar a vizinha desquitada para tomar um café na cozinha do Seu Zé Francisco com seus filhos incontestavelmente bem educados pelo pai, com a ajuda dela, é claro, depois de tantos anos sente como se fizesse parte da família e onde se toma conta de cinco, se toma de seis.

As crianças se entreolharam. Diquinha fez o sinal da cruz.

– Agradeço sua disponibilidade, Dona Adenólia.  E a senhora tem toda razão, onde se toma conta de um se toma de dois ou de seis. Se o Seu Zé Francisco não se importar, posso inclusive ajudar as crianças nos deveres de casa e brincar com elas, assim meu filho e eu teremos companhia.

Seu Zé Francisco achou uma ótima ideia, a contragosto de Dona Adenólia. Para quebrar o gelo tirou o bolo do forno, ofereceu assim mesmo, quentinho e fofinho. Angélica comeu devagar saboreando e achando graça. Dona Adenólia resolveu esperar. As crianças rasparam a panela da cobertura de chocolate e se lambuzaram. Seu Zé Francisco nem ligou. Até o bolo esfriar a conversa se esticou e estava tão boa, mas tão boa, que ninguém viu a hora passar. Quer dizer, Dona Adenólia viu. As crianças ficaram amigas, brincaram no balanço, delimitaram uma sexta parte para o novo amigo. A alegria se espalhou feito coceira.

Deus bem sabe o que nos espera.

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