Partícula

O que deu errado?

Da janela que olho não consigo ver a lua que se esconde atrás do prédio vizinho. Uma boa metáfora pra vida adulta, esse satélite que o prédio mais alto pegou pra si e do qual só ouço falar por meio de terceiros. Quando era jovem, o céu era todo meu e não havia limite. Agora me pergunto quem foi que construiu essa jaula de concreto que aprisiona os sonhos. Seria fácil dizer que foram os outros, mas talvez eu tenha culpa. Ou quem sabe a prisão sempre esteve ali e eu só era pequena o bastante para enxergar além das frestas e conseguir ver o universo.

Eu sou pequena ainda. Me pergunto se além do meu 1,60 m o mundo é outro, se a amostra que recebo aqui embaixo é diferente da que cai nas montanhas. Talvez não. Não importa. A verdade é que estou sentenciada a este corpo, esta dimensão, esse tempo. Não vivo mais no quintal desobstruído onde a noite estrelada me viu crescer e nem encontro mais as águas que lavaram minha alma em outros tempos. No mundo adulto o céu é poluído, a chuva é ácida e o mar é uma ilusão do passado. Queria voltar a ser menor.

Não criança, apenas mais insignificante. Pequena o bastante para ficar imune às exigências e expectativas. Capaz de escapar pelas frestas e cair na porção mais elementar das coisas, no microcosmo onde o mundano não alcança. Aí então poderia me expandir, ser etérea e permear todos os cantos sem estar em lugar algum.

Nesse delírio, eu poderia ser quem eu amo e ir para além das nuvens, para além do preto e branco, do bem e mal. Não teria que saber, não teria que decidir, não teria que nada. Porque cansa ter que, ainda mais quando não se vê o propósito. Quando que ser deixou de bastar?

E falando sobre ser, dizem que eu sempre fui do contra. Pois bem, então sou contra o ter e o dever. Sou contra esse prédio e todos os outros, essa norma e todas as outras, essa angústia e todas as outras que tiram o foco da lua e colocam no concreto. Rejeito entrar nesse molde de barro ainda em vida. Aliás, rejeito qualquer molde que se instale ao meu redor. Vocês até que tentaram me enganar, mas agora eu me lembro bem: Sou feita de poeira estelar.

Eaglefairy_hst_big.jpg

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