Domingo!

Estou aqui nem sei há quanto tempo. A verdade é que este parou para mim a décadas. Nos momentos razão percebo o tempo passando, e eu aprisionado em uma época que já não existe mais.

Tento entender o que está acontecendo comigo, mas as poucas dicas dos fatos encontro no espelho, em um rosto cada dia menos familiar, estranho, velho, ressequido. Não há preocupações sobre minha aparência, os remédios servem apenas para adiar o inevitável.  Olho novamente para o rosto refletido, cravos, pelos gigantes saindo pelo nariz e orelhas… dentes? Não lembro como eram, mas sinto falta. As horas são controladas pelos remédios, sei quando é 8, 12, 16 e 22 horas. O resto delas são intervalos eternos.

Lembro do cheiro do meu quarto quando cheguei. Uma mistura desinfetante, mijo e sangue. Havia uma cama vazia que se tornou minha, e outra ocupada pelo Antônio, que virou Joaquim, Onofre, Marcos, e agora está vazia novamente. A morte é rápida nesta idade… gostaria de saber por que ela olvidou-se de mim.

O prédio estéril não lembrava em nada minha antiga casa, desprovido de calor, ausente de memórias nas paredes, cheio de luzes fluorescentes que iluminam o chão cinza, tornando os caminhos túneis do tempo perdido. Os corredores são longos e cheio de portas. Em cada porta, uma ou duas almas cansadas à espera do óbvio. Regularmente a equação da vida trocava um morto por um vivo, ou quase. As janelas eram abertas e fechadas independentes de nossa vontade. No final do corredor principal, Alcione em pé dentro de sua farda miliciantemente engomada, controla quem vem ou vai através da porta da rua, a qual cruzei apenas uma vez.

Alice chega todos os dias as 7:52h. Copinho plástico contendo 3 remédios de 3 cores e uma jarra de água. Amarelo diabetes, branco pressão, e o azul, para diminuir os efeitos colaterais das outras cores. Logo depois me serve o café com leite sem açúcar por causa da diabetes e uma fatia de pão com manteiga sem sal por conta da pressão. E assim iniciam meus dias destemperados. Ela é uma pessoa boa, diz me conhecer a 15 anos. Negra de braços fortes, peito e bunda grandes, olhos como jabuticabas. Seus braços me colocam sentado na cama e de lá para a cadeira em segundos. Peço ela em casamento, a negra responde que já disse sim diversas vezes e me chama de velho sem vergonha! Digo que sou apenas sem vergonha! Sempre rimos, depois choro. Esta brincadeira me faz lembrar da Rosa.

Os dias passam um após o outro imitando-se em uma brincadeira sem graça feita para prender-nos no presente. Pego o livro que está ao meu lado, releio o capítulo anterior, Angústia.

Gosto quando chove, principalmente tempestades. As coisas mudam um pouco e espanta a moleza do tempo. Os trovões chacoalham as camas metálicas e provocam muitas “Minha nossa Senhora!” na ala das velhas, eu rio por dentro e por fora do medo que sentem. Certa vez, uma obrigou o Alcione a cobrir os espelhos com lençóis brancos evitando assim que os raios nos atingissem. Que tolice, me calo os olhos e apenas escuto. Nos encontramos no pátio para o banho de sol e no refeitório, para o almoço e café da tarde. Não sou e nunca fui de conversa, evito até o contato com os olhos, mas as vezes é inevitável alguma interação. Outro dia uma das mais meninotas me ajudou a tomar sopa de galinha. Falou sem parar, palavras que sumiam junto a fumaça do alimento quente. Após a monologotortura, perguntou: “E o Senhor? Tem Família?”. Finjo que não escuto.

Domingo, dia visita! Único dia desigual da semana. Até a comida se ajeita a mudar. As velhas viram senhoras e se aprumam, os enfermeiros limpam os quartos, lençóis novos ou limpos, banheiro com cheiro de lavanda e corredores com cheiro de querosene. Nós somos “maquiados” para parecer mais saudáveis. Barba, roupa velha lavada e passada. Tenho lugar cativo no pátio sobre minha cadeira de rodas. Vilmar me leva com todo o jeito e me posiciona ao sul do jardim, ao lado de uma passagem coberta por bouganvilles vermelho-sangue que vez em quando gotejam com o vento. Em meu posto estratégico de observação, vejo o entrar de pessoas estranhas carregando os mais diversos objetos. Bolo, flor, roupa, touca, luva, fumo de corda, rolo de lã, fotografias, bebes de colo, carrinhos de bebe, adolescentes impacientes, mulheres de óculos escuros, e adultos barrigudos.

Todos entram como pecadores a se penitenciar, em uma marcha contrariada. A culpa nos olhos de cada um parece ser maior que o amor e gratidão que deveriam sentir. Neste vai e vem das marés de visitas que não são minhas, entro cada vez mais no profundo oceano do esquecimento.

Procuro traços familiares nas crianças que vem olhar o velho de perto. Todos são muito parecidos, alguns arriscam um “oi” tímido, porém saem correndo antes que eu possa sair da inércia e reagir. Algumas vezes meu sorriso vazio de dentes os assustam.

Num momento daqueles em que não sabia se estava dormindo ou acordado escutei em meu ouvido direito: “Oi vovô! Vovô?” Olhei mas não vi, firmei os olhos ofuscados pelo fim do dia, e vi!  Era uma menina! Olhos castanho escuro, cabelos presos metade para um lado, metade para outro da mesma cor, vestido rosa, sapatilha branca e em sua mão uma coruja de pelúcia.

– Meu nome é Catarina e tenho 3 anos! Qual o seu nome?

O que disse?

– MEEUU nome é Caatarina! Tenho 3 anos vou fazer 4! Qual o seu nome?

Por um instante, não consegui processar a resposta, não lembrara nem do que me chamavam.

– José! José Marcos!

– O senhor quer ser meu vovô? Todas aquelas crianças ali ó tem um vovô eu não tenho um vovô. Você quer?

Neste momento uma das senhoras de óculos escuros e sacolas na mão grita:  Catarinaaa! Volte aqui agora!

– Tchau vovô José!

Esbocei um “espere” mas as palavras não saíram. Observei a menina ao longe entre adultos estranhos ao redor de uma velha muda. A menina continuava a me fitar entre saias e calças. Montei campana para abordá-la na saída, assim poderia lhe dizer sim! Aceitaria ser o vovô dela! Porém adormeci.

Acordei a caminho do quarto, sendo empurrado pelo Vilmar. Olhei rapidamente ao redor e vi que era o último que estava fora, sempre o último. Segunda-feira, os dias voltaram a ser dias, na rotina insistente que não nos deixava em paz. Em minhas lembranças cada vez mais difíceis, Catarina vive saltitando por meus pensamentos confusos. Lembro de seu sorriso, sua voz infantil de onde vieram poucas palavras, seu jeito doce de me olhar. Foram instantes, menos de um minuto talvez, que me fizeram lembrar de sou um homem de vida vivida, e um dia fui importante para alguém e tive uma família.

22 horas, último remédio do dia. Encosto o meu rosto no travesseiro azedo na esperança que seja o início do sono eterno, sono este que irá me libertar das garras do tempo.

Euler

 

Euler Menk, engenheiro civil, encantador de peixes, mecânico, eletricista e jardineiro nas horas vagas, membro honorário do clube da cerveja, colecionador de ferramentas e escritor quando dá na telha.

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