O Maior dos mistérios

Francisco: Mamãe, a Catarina disse que você vai morrer.

Eu: Mas eu vou morrer, filho.

Francisco: Mas não agora, né?

Eu:  Não, tomara que eu morra bem velhinha.

Francisco: Eu também vou morrer?

Eu: Sim filho, todos vamos morrer, não sabemos quando.

Francisco: Mas, eu não queria que a gente morresse! Por que temos que morrer?

Eu:  Porque todos morrem em algum momento.

Francisco: Mas por quê?

Eu: Porque tudo morre, tudo acaba (depois de ter falado isso, senti um nó no peito e uma pontada de remorso). Então emendei: Acho que a morte existe para que a gente saiba aproveitar bem a vida, fazendo o bem, estando junto das pessoas que amamos. Se a gente não morresse, não valorizaria tanto isso, já que tudo duraria para sempre.

Francisco olha para mim com seus olhos grandes, depois pra cima e se cala.

Catarina: Daí a gente vai lá pro céu e vira estrelinha né, mamãe?!

Esse foi o “papinho” que tivemos pela manhã. Estou acostumada a falar a verdade para as crianças, por mais difícil que seja o assunto. Depois me questionei se falar com tanta informalidade sobre a morte seria algo positivo ou não. Perguntei-me se o fato de eu admitir minha mortalidade poderia eventualmente suscitar paranoias, medos injustificados, pânico, tristeza e outras coisas ruins.

Fui uma criança cheia de medos. Cada vez que meus pais me deixavam na casa de algum colega, ou quando ficava em outra cidade na casa de tios, nas férias, e os via saírem de carro para longe de mim, entrava numa espiral de medo de que eles morressem. Imaginava as piores coisas: acidentes, fogo, coisas que eu tirava não sei de onde. Então me via sem pai nem mãe, uma menina órfã no mundo e desatava a chorar. Minhas tias tentavam me consolar, mas eu só conseguia descansar minha mente e meu coração depois que a  mãe ligava para falar comigo. Às vezes ela não fazia no mesmo dia, às vezes esperava o dia seguinte. Nessas ocasiões, não dormia, passava a noite pensando.

Foi justamente essa conversa de hoje que suscitou em mim essa lembrança infantil, e tentei recordar se alguém em algum momento conversou comigo sobre a morte, o que ela é, como acontece, o que significa e todo tipo de papo filosófico sobre o tema. E a resposta que me veio foi que não, ninguém nunca conversou comigo a respeito.

Não é um assunto fácil, me parece que a cultura ocidental bota panos quentes em sua existência. Tirando o dia de finados, os mortos não são lembrados. Admitimos que outros morram, mas nós e os nossos não. Animais morrem para que a gente os coma, pessoas morrem em atentados terroristas, acidentes de trânsito.  Aliás, pra nascer todo mundo nasce meio parecido, mas existem um milhão de maneiras de morrer.

Compreendo esse pudor em falar do assunto, eu mesma o tenho. A impressão (que imagino que seja cultural) de que se eu falar da morte, ela possa ouvir e venha assombrar a mim ou aos que amo. Por outro lado, outras culturas não a encaram como um castigo ou uma maldição, mas uma condição natural da vida, o outro lado da moeda, e acho que é uma maneira mais saudável e menos sofrida de enxergar o assunto.

O grande paradoxo é que as crianças são bombardeadas com imagens de gente matando gente, ainda que seja em filmes, séries, vídeogames (naquele esquema maniqueísta que separa os bons e os maus, como se fosse simples) ou em propagandas inadequadas em pleno sábado à tarde. Conclusão: ao mesmo tempo que a morte é um tabu também é banalizada de um jeito perverso.   

Comigo foi assim, primeiro meu ramster, depois um cachorro e depois meu avô materno, internado há algum tempo num hospital. Eu tinha nove anos e fui pega desprevenida. Não me levam ao velório, nem ao enterro, mas a gravidade era presente. Choro por sua morte, sei que não o verei mais apesar de ninguém ter me falado.

Na semana anterior o havia  visitado no hospital, ele me chamou de risonha, como sempre, perguntou do menino que eu tinha dançado a festa junina da primeira série, como sempre  (o que me causava a maior das vergonhas) e no outro dia, ele morre? Mesmo estando no hospital, não é o desfecho esperado ou aceito.

Depois, foi minha avó paterna, que eu via todos os finais de semana. Chorei muito em sua morte. Ela foi velada sobre a mesa da sala da casa em que vivia. Foi a primeira vez que vi um corpo humano morto. Naquele momento tirei minhas próprias conclusões: A morte está presente na vida.

Comecei a investigar, procurar explicações e passei a vida transitando por filosofias e religiões que me dessem uma justificativa decente. A conclusão que cheguei depois desta odisséia foi o que disse para as crianças pela manhã de um jeito simplificado, mas que significa basicamente que a morte existe para que a gente aprenda de uma vez por todas que o agora é o momento mais importante que existe. Agora é a hora certa para fazer as coisas acontecerem. É melhor fazer o bem que o mal. Os amigos, sua família, seu dinheiro, seu status não são eternos. Todos estamos de passagem nessa terra, assim, não vale a pena atropelar ninguém pra conseguir o que quer que seja.

Sei que outras perguntas surgirão e que não tenho a verdade absoluta para dar aos pequenos.. Talvez também não exista remédio para o assombro da morte, falando ou não falando a respeito, ela sempre choca.  Mas espero que eles estejam mais preparados do que eu para lidar da melhor maneira possível  com esta coisa natural que é morrer e sobretudo, que saibam reverenciar cada instante de suas vidas  e respeitar de coração, a vida alheia.

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5 comentários sobre “O Maior dos mistérios

  1. Muito interessante seu post. É difícil falar de morte com os filhos com franqueza e naturalidade. Eu disse aos meus que a vida sempre se transforma e vamos continuar existindo no planeta de algum modo. É o que eu acredito, mas não é simples de aceitar…

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    • Obrigada ludoevico! é engraçado como as próprias crianças (se você não tentar doutrina-las com respostas prontas) acreditam nessa tua teoria! dia desses um bicho morreu (foi morto por um cachorro nosso) no quintal e a pequena me perguntava no que o guaxinim se transformaria, se num outro guaxinim ou num ser humano ou num cachorro ou numa estrela, numa minhoca, enfim….

      Curtido por 1 pessoa

  2. Que lindo! Não é fácil, mesmo! Meu avô dizia: a morte é a única certeza da vida… Precisamos morrer pra dar espaço a outras vidas.
    Verdade. Imagina se ninguém morresse, o mundo ficaria intransitável..rs
    Ele foi a primeira pessoa mais próxima que perdi, mas não o vi morto. Ele morreu durante uma viagem à um lugar, que para ele, era perfeito pra morrer. Foi como se tivesse planejado a própria morte com Deus, com quem ele já tinha uma certa intimidade…rs. Minha família ficou arrasada por não ter aquela despedida formal dele…mas foi melhor, assim pudemos guardar apenas as imagens bonitas…
    Bjo

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  3. Esse assunto é algo difícil de se trata!
    Mas com serenidade como vc fez, Mel acredito que vamos passando os valores para os nossos pequenos! Excelente texto pra refletirmos!

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