D.R.

Achei que estávamos mais íntimos depois de todos esses anos, mas a verdade é que ainda não sei o que fazer quando você me encara com esse vazio. O que devo dizer para te dar vida novamente? Por que tem que ser assim? O que foi que eu fiz de errado para voltarmos a esse estágio? Tantas perguntas e tudo o que recebo é seu silêncio ecoando as respostas que não tenho.

Questiono se aqueles casais com bodas de prata, ouro e o escambau também vivem esse tipo de crise na intimidade. Pelos meus cálculos, estamos próximos das bodas de prata, mas será que já fomos felizes? O que nos une além dessa busca por sentido, por controle e da tentativa de colocar ordem na imagem distorcida que você me reflete? Talvez tenham sido tantos os anos de angústia compartilhada que já não sei até que ponto você é minha cura ou minha maldição. Não sei nem se você existe além de mim quando me encara dessa forma. Qual seu valor além daquele que atribuo? Por que nossa relação precisa ser assim, cheia de altos e baixos, mesmo depois de tanto tempo?

A gente se conheceu na infância, mas só nos aproximamos de verdade naquela fase trágica da adolescência. Você tinha o poder de traduzir todos aqueles sentimentos conflitantes que eu despejava e aos poucos me vi dependente. Não sei se era uma relação saudável, mas funcionava muito bem até a época do vestibular, quando o medo do futuro me fez questionar a seriedade dos meus sentimentos. Nossa relação ficou distante, até um reencontro durante a grande depressão acadêmica. Você me salvou outra vez e decidi que não nos separaríamos mais. No começo era como se eu fosse uma adolescente outra vez, com medo de fazer tudo errado, tateando cega por caminhos já percorridos. Aos poucos voltei a ter confiança e a coisa ficou mais divertida. Testamos nossos limites e exploramos novas possibilidades. Não apenas assumimos nosso caso, mas saímos por aí exibindo nosso amor para quem quisesse ver. Você me fez recuperar propósitos antigos e administrar parte do medo de alcançá-los e, mesmo quando a tristeza voltou a me encontrar, você não me deixou sucumbir. Éramos um time, você e eu. Um time forte. Por que então me olha desse jeito?

Era pra esse ser nosso ano. O blog tá organizado, ninguém está doente, meus horários já não dependem de uma instituição e, por isso, tenho mais tempo para dedicar a nossa relação. Até tive algumas ideias que podíamos usar, mas sempre que chego empolgada pra contar, você me corta com essa cara de “isso não é bom o bastante”. Se eu penso em escrever sobre aquele lance do fantasma, você diz que já fizeram isso antes, como se eu nem tivesse o direito de arriscar. Aí tento ser profunda e você diz que não é meu estilo. Faço piada pra aliviar o clima e é como se fosse mais do mesmo. Abro meu coração e você diz que ninguém se importa. Assim não dá! Já não basta curtir a porra da viagem, você quer escalar a merda do Everest sem ligar pro fato de eu não gostar de alpinismo!

Mas não esqueça que quem dirige esse veículo até o Himalaia sou eu, seu pedaço insignificante de folha em branco! E a mim você não desencoraja! Não mais.

Fica então com esse relato meia boca sobre essa crise criativa e se não gostar, paciência. Desculpe se não sou o James Joyce para te fazer Ulysses, mas é o que temos pra hoje. Ao menos agora você tem algum conteúdo e eu me livrei desse fardo. Passada a tensão, posso enfim enxergar a natureza da nossa relação: você se enche de palavras e eu me esvazio de caos. Pelo menos até a próxima página.

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