Mundos paralelos

A Mãe e o Pai não estão preparados para o mundo real. É um tanto absurdo afirmar isso de quem criou, sustentou, educou e preparou dois filhos para torná-los gente, indivíduos, cidadãos, enfim, pessoas capazes de sobreviver com alguma dignidade justo no mundo real. Mas essa é a verdade e faz tempo que o despreparo deles me comove e me irrita.

Dia desses, ao assistir no Jornal Nacional uma matéria sobre a reforma da Previdência, a Mãe me questionou:

Tu não parou de pagar o INSS, né?

Ela e o Pai são incapazes de compreender que a Previdência, que todo o mês deposita seus salários, está quebrada e não vai garantir a minha aposentadoria (provavelmente nem irá existir daqui trinta anos). Também lhes é impossível aceitar que eu trabalhe por conta já cansei de receber conselhos e alertas em tom catastrófico; também cansei de explicar que a vida de funcionário público me dá náuseas e não desejo fazer carreira em uma empresa grande.

— Claro que não — respondi de pronto para evitar ouvir a mesma ladainha de sempre.

A Mãe e o Pai tocaram suas vidas trabalhando com carteira assinada, investindo a saúde em jornadas de trabalho pesadas que lhes impediam de resolver questões pessoais sem sacrificar o horário de almoço, engolindo esporros e desrespeito de chefes à moda antiga, entre outras coisas, tudo por medo do desemprego. Proporcionaram ao Mano e a mim estudar em boas escolas, compraram carro e casa própria, conseguem até hoje pagar um bom plano de saúde e manter um padrão de vida confortável porque seguiram uma fórmula que funcionava. Foram bem sucedidos, pois estavam preparados para aquele mundo real.  

Mas o mundo mudou. E não há nada que aterrorize mais um idoso do que a mudança.

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Meus pais não têm consciência, mas, como todos os idosos, sentem que Mudança é sinônimo de morte e Novo é o contrário do que eles são. Por isso se protegem em seus pensamentos e hábitos antigos, são fieis à rotina, aos trajetos curtos, ao sofá de casa e confiam sem questionar em instituições e marcas tradicionais independente de estarem decadentes ou quase falidas.

Nenhuma tradição se mantém porque é boa, bonita ou correta, mas sim porque nos ajuda a negar a passagem do tempo. A tradição é uma crença, necessária à sobrevivência emocional.

É difícil até mesmo convencer a Mãe e o Pai a comer pão sem glúten e beber leite sem lactose. Preferem ficar estufados e com dor de barriga do que mudar um hábito. Na velhice, abrir mão de um hábito ou de uma ideia é como aceitar que se passou a vida inteira no erro ou no ridículo — isso leva ao vazio, numa idade na qual o sentido da vida é muito mais importante do que na juventude, pois aos 45 do segundo tempo o sentido está em tudo o que você fez, não em fatores externos e filosóficos.

Então o filho precisa virar pai dos seus pais (sem que eles percebam). Temos o compromisso moral de fazer todo o possível por eles, aquela coisa de retribuir o irretribuível. Confesso: essa missão desperta em mim uma mistura de orgulho e prazer. É uma forma de dizer à Mãe e ao Pai “Olhem, estou pronto”. Este é o grande prêmio para quem investiu a maior parte da vida cuidando dos filhos, instituindo para si que o papel principal da existência é ser mãe ou pai.

A grande injustiça nessa história é que nós, filhos, por melhor que cuidemos deles, não conseguiremos prepará-los para viver o nosso mundo. E jamais estaremos preparados para o inevitável.

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