Hora marcada

Texto dedicado ao Lisandro Pessi e à Cynthia Jonas, cujos personagens me serviram de inspiração.

FREUD'S_SOFA

Então doutora, tudo bem se eu te chamar de você? Acho estranho me abrir para alguém com títulos e você é muito jovem pra ter doutorado. Ok. Por onde começo? Ah sim, o que me trouxe aqui. Resumindo a história, estou aqui porque ninguém me entende. E quando digo ninguém, é ninguém mesmo. Muito provavelmente nem você vai entender. Mas tá difícil, sabe? Não ter um ombro amigo, não receber um pingo de empatia. É só ingratidão que recebo dessa vida e tudo por trabalhar fazendo algo que ninguém mais tem coragem de fazer. Pior que nem tive opção, um belo dia me incumbiram do cargo e cá estou, matando pessoas desde que o mundo é mundo, sem direito a férias ou aposentadoria.

Mas não se preocupe. Não vou matá-la, pelo menos não agora. Vim aqui porque tenho uma infinidade de mágoas para desabafar e seria contraproducente assassinar quem está me ouvindo. Aliás, se eu fosse você, ficaria bem longe de estações de esqui. Avalanches são seu ponto fraco. Como sei disso? Eu sei de quase tudo nesse mundo. Sei até que você me acha louca e que precisa ir no banheiro. Por sinal, é bom ir logo. Acho muito desagradável conversar com alguém focado na própria bexiga. Vai lá, eu espero. Tenho tempo.

Melhorou? Claro que sim. Onde estávamos? Ah sim, em como todos me detestam ou têm medo de mim. Até parece que ninguém sabe do contrato. A pessoa já nasce sabendo que vai ter prazo de validade e depois eu é que sou ruim. Sou só a agente de cobranças, se é pra culpar alguém, deviam culpar a Vida que fica aí distribuindo empréstimo pra quem não tem como pagar. O único problema é que nem funcionários de agências de crédito me entendem. Quando me encontram, se esquecem rapidinho sobre a importância de pagar as dívidas. A grande maioria insiste em pedir prorrogação de prazo, alegando que não aproveitaram o suficiente. Outros não aguentam o stress e resolvem fazer o trabalho por conta própria, bagunçando toda a minha agenda.

Falando nisso, é impressionante o número de vezes que me culpam por pessoas que não levei. Tá, sei que vocês acham perigoso divulgar quando alguém resolve dar fim à própria existência. Mas e eu? Você acha justo eu sempre levar a culpa por algo que não fiz? Isso também vale pra violência gratuita. Não é problema meu se vocês gostam de machucar o próximo. Meu estilo é outro. Uma mancha inocente no exame de ultrassom, um parafuso frouxo na fuselagem, um desastre natural e por aí vai. Aliás, pior que a fama de má é esse negócio de ser responsabilizada por serviço mal feito. Qualquer um pode explodir coisas. O que faço requer muito mais planejamento e visão do que a humanidade é capaz de imaginar.

Se tenho orgulho do meu trabalho? Boa pergunta! Até acho que sim, apesar de não gostar de trabalhar. Vai ver é porque estou há tanto tempo na função que já me acho insubstituível. Mania de velha, né? Aliás, pareço velha pra você? Hoje no elevador um adolescente me chamou de tia. Moça até vai, mas tia? Qual a vantagem de ser uma entidade imortal se rapazes desconhecidos se acham no direito de me chamar assim? Ele só sobreviveu porque eu estava com pressa, mas ainda estou pensando no assunto. Estou um pouco atrasada com a meta anual, sabe como é. Dezembro tá no fim e o chefe fica insuportável nessa época.

Que meta? A que recebo da central no começo do ano. Aliás, essa é outra coisa. Todo mundo pensa que sou uma mistura de CEO com motorista, gerenciando os números e levando as almas pra esse lugar que vocês chamam de Além. Mas sou apenas uma funcionária mediana, realocada à contragosto para a filial remota onde ninguém quis ficar. Era isso ou tapar buraco de minhoca. Estou há tanto tempo nesta dimensão que nem lembro mais como é a Matriz. E não carrego ninguém pra lugar nenhum, eu só coleto. Quem separa e transporta as almas é o Martins. É pra ele que deviam perguntar as coisas, não pra mim.

E já que estamos falando de meta e transporte, também já não aguento mais ouvir gente perguntando o porquê dos bons morrerem cedo. Morrem cedo porque eu quero! Porque também tenho sentimentos e preciso de alguma variedade. E porque gente ruim ajuda a melhorar os meus resultados. Pensa comigo: se tivesse que acabar sozinha com a vida de pelo menos 1% da população atual, quem você deixaria vivo, John Lennon ou Hitler? É como dizem por aqui, negócios são negócios. O que as pessoas deviam se questionar é sobre essa indignação seletiva. Fica todo mundo me enchendo o saco quando resolvo pegar algum galã de Hollywood, mas ninguém abre a boca quando explode alguma epidemia na África. É complicado isso, porque eu preferiria mil vezes descontar a raiva nos ricos e poderosos mas, na hora que a coisa aperta, sobra sempre para os menos afortunados. Tudo isso porque não tenho mais paciência com tantas cobranças. Isso faz de mim uma má Morte? Não sei, só sei que preciso muito de uma folga.

Já deu nosso horário? Que pena! Foi muito relaxante conversar com você. Se nos vemos semana que vem? Puxa, acho que é a primeira vez que me perguntam isso, claro que podemos nos ver! Nesse mesmo horário? Sem problemas. Quanto é a consulta? Tudo isso? Quer morrer? Brincadeirinha! Mas por esse preço vou precisar de recibo. Uma hora de consulta é uma eternidade de alívio pra quem tem todo o tempo do universo.

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3 comentários sobre “Hora marcada

  1. Amei, Ju!
    Fico feliz que minha protagonista tenha servido de inspiração. O que mais gostei foi esse seu toque de humor… Curto isso ; ) Também muito inspirador. Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

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