Era uma vez: Acordes

images violão

Créditos: Pixabay

*Inspirado em Cinderela, dos Irmãos Grimm, lançado em 1812.

Aos seis, Clara era uma pequena como tantas outras, brincava no quintal e passava as manhãs escutando histórias e canções em sua vitrolinha. As rodas de música em que o pai tocava e a mãe cantava, nos almoços de domingo, eram seu maior presente. Não demorou muito para surgir o primeiro violão de aniversário, aos sete. O pai incentivava mostrando nomes como: David Bowie, Elvis e tantos outros, e aos poucos surgiram as composições.

O pai, grande engenheiro industrial, trabalhava em uma cidade vizinha sendo obrigado a sair muito cedo e voltar para casa muito tarde. Mesmo à distância, preocupava-se com os sonhos de sua filha e em como ajudá-la. A melhor decisão foi contratar um professor particular e que as noites fossem dedicadas às apresentações familiares. As tardes de Clara seguiram assim por um bom tempo, com o incentivo do professor já inseria rock, new age e outras vertentes em seus arranjos.

“Pai, tem um concurso na escola e outro em Limeira. Aqui vale um brinquedo, lá um telescópio, me inscreve?” De seleção em seleção, Clara passou a ser conhecida dentro e fora do vilarejo no interior de Minas Gerais. Era chamada para pequenos eventos e para melhorar as apresentações montou uma banda com amigos da escola. O pai, cheio de orgulho, voltava contando à mãe cada novo elogio que a filha recebia.

“Acho que preciso de um novo espaço para os ensaios, Pai. A escola não tem muitos horários. A garagem seria legal!” O mundo era pouco, ela queria sempre mais.

“Mãe, fiz uma música para o Pedro, o pai me ajudou.” Como a família estava crescendo,  os pais acreditavam que era chegada a hora de mudar para uma casa maior e conciliar o desejo de Clara e o quarto para o bebê. Só não esperavam defrontar-se com as surpresas do destino: um dia na volta da escola, mãe e filha conversavam sobre as aulas e o bolo de fubá quentinho que esperava a pequena em casa. Decidiram que o jantar seria ao som de Chegada, a canção que fizera com o pai para o irmão, faltavam só o macarrão e queijo ralado.

“Sim, no Hospital Santa Maria. Não sabemos ao certo o que houve. Um carro desgovernado furou o sinal vermelho”. O pai só conseguia lembrar do rosto de Clara e da esposa, as palavras demoraram a ser compreendidas. A menina não entendia o porquê de tantos aparelhos grudados em sua boca e nariz, nem a causa do choro do pai. Tampouco como tinha parado ali e onde estava sua mãe. Um acidente, clarão e a buzina estrondosa. “Ela se foi, Clara e seu  irmão também não resistiu.” A partir daquele momento nada mais importava, nem as aulas, nem as cordas do velho Souto. Oito anos passaram-se sem uma música sequer, aquilo remetia alegria, sentimento esquecido junto à frieza daquela casa.

Os primeiros discos com trilhas sonoras de novelas, surgiram quando o pai casou novamente. Nem a madrasta, nem as irmãs que Clara ganhou de brinde, tinham um gosto musical muito apurado. Aos dezesseis, era cada vez mais difícil conviver em um lugar onde só as diferenças prevaleciam. “Não pensa que vou lavar seus trapinhos, viu, meu bem! Aproveita e lava os das suas irmãs já que você está com a mão na massa”. O  banheiro tá imundo, não vê água há séculos igual seu cabelo. Faz o favor de lavar porque o pessoal do clube vem aqui hoje à noite e não quero passar vergonha. Vamos à manicure e espero encontrar tudo pronto na volta. Nem perde tempo naquele seu violão de merda, adianta as coisas que você ganha mais!”

“Bom, a unha até adianta ela fazer, já que a cara, só nascendo outra vez.” A rotina de Clara não se distanciava disso: acordar cedo para dar conta de tudo e treinar as músicas assim que terminasse. Usava o quartinho dos fundos numa tentativa de não ser incomodada, mas poucas eram as vezes que os ganidos da mulher ou das filhas não a interrompiam. O pai, mesmo cansado, ficava até tarde da noite ouvindo as descobertas e avanços da filha. Trazia novas letras e não escondia a felicidade de ter de volta a alegria de anos atrás, invadindo a casa junto com os acordes do violão.

“Clara, vai comprar pão que o namorado da sua irmã está chegando com os pais para um lanche.”

“E por que ela mesma não vai?”

“Clara, faça-me o favor, tá chovendo ela não pode estragar a belíssima escova que fez”.

Foi o pedido mais sensato que a insuportável poderia ter feito: “Concurso para escolha da melhor canção para o retorno de Joaquim, filho do grande fazendeiro. Cem mil reais como prêmio.” Os olhos de Clara nem enxergaram o restante do aviso preso no poste em frente à padaria. Até sucumbiu àquele lanche estúpido, já que a família abastada do namorado da irmã teria mais informações sobre  José Figueira e a volta de seu filho.

Os dias seguintes foram de pesquisa e treino. A história do rapaz era interessante, a mãe também tinha morrido na infância, motivo de Joaquim ter vivido com os avós em São Paulo. O cara tocava na Orquestra Sinfônica, até que não era tão filhinho de papai como parecia nas fotos do jornal da cidade. Foi então que Clara lembrou da criação da música para o irmão, e dela surgiu o ponto de partida para a composição.

No sábado da grande festa não havia um canto da cidade que não se falasse disso. A avó tinha presenteado a menina com dinheiro para comprar uma roupa para o evento. “Escuta, alguém tem que ficar com o chato do seu pai hoje, viu. A família do noivo da Camila vem nos buscar às 20h, pois nem para nos levar ele presta.” Nem adianta ficar bravinha porque lá não é seu lugar, Clara. Vou te poupar de passar vergonha!”

“Eu tenho que ir, estou concorrendo ao prêmio. O Pai nem quer companhia, para de ser louca! Já chamei um táxi e vou.”

“E você acha que tem chance? Nem a unha você se deu ao trabalho de fazer.” Clara não ouviu o restante, o som da porta fechando na cara da madrasta abafou as palavras seguintes.

TRIBUNA DE ANÁPOLIS                     20 de janeiro de 2017

 Musicista brasileira recebe Grammy com canção inédita

Clara Medeiros, recém chegada de uma turnê internacional, oferece prêmio ao pai

A pequena cidade de Anápolis não esconde o orgulho. Faixas comemorativas são vistas desde a igrejinha Matriz até a prefeitura. “Ela tocou muitas vezes neste coreto, a gente sabia que brilharia”, citou Dalva dos Santos, professora primária de Clara.

A compositora não estava na cidade ao acaso, era a inauguração do Centro Cultural Beatriz Medeiros, que recebeu este nome em homenagem à mãe, falecida em um acidente na década de 80. A população acompanhou o show precedido pela  musicista e  banda composta por sua esposa Leila e seu amigo, Joaquim de Oliveira, maestro da Orquestra Sinfônica de São Paulo. “Tocar ao lado de Clara é sempre uma emoção incrível, ainda mais em nossa casa”. E foi ao som de Recomeço, canção composta para o amigo aos dezesseis, que o povo celebrou a vinda da violinista e do novo local de cultura da cidade.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s