Era uma vez: Desaventurança

Texto baseado no conto de fadas europeu O pequeno polegar, que Charles Perrault recontou e publicou em 1697.

 

Nasceu pequeno, o menorzinho dos sete. Eu vi esses meninos crescendo de tamanho, mas o Pequeno só crescia em esperteza. Fazia o diabo em casa, corria, quebrava as coisas da mãe, mexia nas bebidas do pai. A mãe fazia faxina. O pai, desempregado, vivia correndo atrás. A gente se aproximava dele e já justificava que a crise deixou todo mundo sem emprego no país e precisava de dez reais emprestado para comprar pão e leite para os meninos. Nunca pedia para a gente dar o dinheiro, sempre era um empréstimo. Agora pensa se pagou alguém nessa vida? A mulher e o bolsa família sustentavam a casa. Os meninos todos lesados, bestões, Pequeno comandava todos porque tinha tutano. Quem pensa comanda. O problema é que o moleque pensava pensamento ruim e comanda mais ainda. Era uma peste, aprontou muito na vizinhança. Pegava menina desde cedo, roubava cigarro, tomou gosto pela vida de aventura. E no dia que o pai implicou que precisava se ver livre dos meninos, dizendo que era mais fácil viver sem muita boca para dividir a comida, foi Pequeno que resolveu a história. Ouviu a conversa dos pais, quer dizer, do pai, pois a mãe só abria a boca para rezar e chorar. Era a dona do pouco dinheiro, só que não tinha o poder. Você sabe, mulher que não se reconhece é um inferno. Engole sapo de qualquer joão-ninguém por medo de ficar só, nem percebendo a solidão de estádio sem jogo que se meteu. O cangaia do pai levou os meninos na Lavagem do Bonfim e largou tudo lá. Daí Pequeno deu um jeito de jogar umas coisas no chão e marcou o caminho de volta. Não sei se foi verdade, nem tudo que se fala é verdade, mas tudo tem um resultado. O que aconteceu é que o pai chegou da festa, pensando que ia dar com a casa vazia, e estavam lá, os seis e Pequeno, com seu tamanho de dedo, esparramado no sofá. Mas o homem era ruim demais e, passado uns dois dias, colocou os meninos num ônibus e foi parar no terminal. Comprou um quebra-queixo para cada um e se picou. Dessa vez a esperteza de Pequeno não deu conta da ruindade do pai. Daí os meninos se valeram das feituras do menor para viver naquela estação. Dizem que foi mais de mês, roubando e se escondendo da polícia. Foi nas andanças pela cidade que viram a casa da janela manca. Uma casa abandonada, ruína mesmo, numa boca de asfalto ali na ladeira atrás da igrejinha. Entraram num mocó, tinha gente lá dominando a área. Pequeno contou que saiu de dentro de um quarto um homem, parecendo um gigante, magrelo, com olhos de fogo, bolha de queimadura na boca, usando uma bota de cowboy, e se não fosse a ausência de dentes teria comido os sete e ele seria a sobremesa. Mas sabe como é, o carinha era bom de conversa e convenceu o gigante a deixar que eles passassem a noite ali. Foi quando chegaram as mulheres. Ele contou sete do tamanho dos irmãos e uma velha. Tinha uma ou duas que ele comeria facinho, mas quem comeu mesmo foi o gigante, na calada da noite, talvez pensando que estivesse comendo os meninos, pela fome e posição por trás. Pequeno deu um jeito de sair dali, roubar um carro de um pato que passava por lá aquela hora da noite e dirigiu feito doido pela cidade. Não me pergunte como, mas chegou bem na rua deles, encontrou a casa e aliviou a tristeza da mãe. Pôs o pai para fora e a mãe reza pedindo desculpa para Deus até hoje. Moral da história, Pequeno aprendeu foi coisa, montou seu reinado e comandou a região até anteontem quando mataram o moleque, com sua esperteza junto, numa emboscada na noite do ensaio de verão. Reconheceram porque usava uma tal bota maior que o pé, que bem poderia ser do gigante ou, quem sabe do pai, que encontraram boiando no Dique pouco tempo antes, sem o polegar.

 

ferrugem

As histórias enferrujam também.

 

 

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8 comentários sobre “Era uma vez: Desaventurança

  1. Intenso, forte , não consegui ver vc na narrativa como das outras vezes. Vc é mais solta e revela uma transparência que não percebi. Quanto a qualidade do texto eu achei excelente . Só não vi vc
    Bj

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