Música para ler: Repressão

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Crédito: Pixabay

* Texto inspirado na canção Tigresa, de Caetano Veloso, lançada em 1977.

Acesso em: Tigresa, Caetano Veloso  

Poucos se rendiam aos prazeres de um gole e outro pós trabalho. O ano era 1977, quando a Ditadura imperava em  nossas ruas. Tempos de censura à música, cinema, teatro e televisão sem motivos aparentes, somente em prol da moral e  bons costumes, que incluíam também a imprensa e outros meios de comunicação. Submetia-me àquela corja de deveres em falas e atitudes como uma maneira de exercer nossa ilusória liberdade. Era época em que o Brasil chorava a vergonha impregnada nos rostos de seus exilados. Por vezes, era um deles, os levados pela bebida.  Só um momento de descarregar ideias e lamúrias sem o menor propósito. Sempre entrava e saia sem reparar nas pessoas que ali estavam. Seguia uma rotina: duas ou três cervejas e partia para minha vida enfadonha de recém-separado.

Naquele dia tinha algo a mais a ser apreciado. Belos traços que só me traziam um sentimento: desejo. Corpo, cabelos longos e um sorriso que jamais teria apagado das minhas memórias se antes o tivesse cruzado. Estendi meu copo em sua direção. Foi o escape para que viesse até mim com o balanço mais enigmático, nunca visto naquele bar, somente acostumado a presenciar minhas queixas e lamentações.  Eu, no auge dos trinta e seis, sentia ali a insegurança dos vinte. O papo fluia livremente. Ela me contava tudo que já tinha vivido sem a menor certeza em suas falas. Odiava as repressões daqueles tempos e todas as limitações que vivíamos. Gostava da política de 1966, então liderada por Castelo Branco. Dizia alto em confronto às músicas de Gil: “Aquelas falações tão cheias de cinismo no jornal, defendendo as  possíveis eleições diretas tão logo as condições do país permitissem. Será que ele pensava que alguém daria ouvidos àquelas mentiras?” Ele morreu no ano seguinte, não tendo tempo para presenciar as represálias de seu sucessor, Marechal Arthur Costa e Silva, eleito pelo congresso contra sua vontade.

Conseguia enxergar tristeza atrás das histórias dela, vagavam entre o passado e presente. Dizia que o amor não lhe trazia boas memórias, que o havia espalhado às vezes, mas em sua maioria se prendia somente aos prazeres. “Alguns me fizeram feliz, outros mulher.”

Me deixei levar pela carne, pelo tesão. Junto dele senti o inebriante do corpo dela junto ao meu. E ali, debruçada em minha cama, olhos negros feito tigre, a pele de ouro marrom se fez adereço madrugada adentro.

Era destemida, sabia onde queria chegar. O plano era voltar aos tempos em que era liberta, assim como a nudez que encenava no Hair, em 1969, e que hoje só podia reviver na Frenetic Dancing Days, nova discoteca do Rio, que eu conhecia somente pelos jornais.

Ela era vulcão. Eu, calmaria. Ao acordar, diante do azul frente a minha janela, me restava só o lamento ao violão. Fiquei com os os acordes e o perfume impregnado em meus lençóis.  Tigresa, assim te guardarei.

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