Música para ler: Proparoxítona

Construção é uma canção do cantor e compositor Chico Buarque, lançada em 1971 quando tudo parecia treva, como hoje.

SÓLIDO

Era um bom moço, digo bom e digo moço por costume. Acho todo mundo bom e moço até que provem o contrário. Deixou mulher, filhos, família grande. Trabalhava na construção civil, era pedreiro. Já foi peão de obra, chão de fábrica. Não sei o nome que deram de chamar esse povo, agora trocam o nome de tudo para ganhar novo sentido. Novos tempos.

MÁQUINA

Soube que ele ajudou a construir aquele prédio da esquina. Mansão alguma coisa. E pensar que todo prédio de gente rica é construído por gente de pé rachado.

PRÍNCIPE

Trabalhava muito e todo dia contava as moedas. Tinha sempre o transporte de um, o material do outro, a feira, os remédios. A mulher vende Avon, Hinode, essas coisas de revista. Ganha quase nada, mas ajuda em casa. Agora vai ter que se virar, coitada.

LÓGICO

Sim, era trabalhador. Bêbado? Pode ser. Pode ter bebido um pouco, ninguém é de ferro.  Todo trabalhador tem um vício para sobreviver. Acho justo.

FLÁCIDO

Caiu na faixa de pedestre, sorte que não passava ninguém na hora. Foi no sábado. Uma pessoa parou, socorreu, mas ele morreu lá mesmo, é o que dizem. Foi uma mulher, se fosse homem duvido que parava.

PÁSSARO

Caiu do andaime. Foi uma cena triste. Ele caído para um lado, a marmita para o outro. O reconheceram logo, estava de uniforme. Os colegas disseram na delegacia que ele pulou e ninguém conseguiu segurar. Foi o que o engenheiro falou também. Parece coisa arranjada. A mulher não vai receber um real por causa disso que falaram.

TÍMIDO

Agora veja se empregado se joga de construção. Cai e pronto. Pobre não tem tempo de pensar que morrer é solução para alguma coisa nessa vida. Mais fácil matar um do que matar a si mesmo.

ÚNICA

Coitada, faz pena. Não sei como será o destino daquela mulher, com a vida toda atrapalhada. Diz que fica lamentando e acariciando a cama. Saudade é igual pingo de chuva nos óculos, incomoda demais. A pobre está mais pobre agora sem marido. Mulher que depende de marido para viver acaba igual a essa, sem chão quando se vê sozinha. Os meninos estão lá, cada um mais choroso que o outro. O pai era presente, cuidava dos guris. Tratava tudo como príncipe e a mulher como se fosse só ela.

ÚLTIMA

Tinha outra, todo mundo sabia na rua. Era sem vergonha para mulher, Deus o tenha. Deve aparecer um menino aí dizendo que é filho dele.

PRÓXIMO

Alguém precisa ir lá ajudar. Deixar a criatura chorar em paz. Levar os meninos para se distrair. Povo ruim, só faz falar, ninguém faz nada.

PÚBLICO

A mulher arranjou um bom advogado, vai processar a empresa. Tem que brigar mesmo na Justiça, se tiver razão ou não. Essa história de obedecer na morte quem manda na gente a vida toda é que mata o cidadão um pouco a cada dia.

NÁUFRAGO

É, teve a história da dança, no dia que ficou rodando feito doido no passeio. Pode ter sido um encosto, ou doidice mesmo. Quem já viu pobre dançar assim à toa? Motivo ele não tinha. Levou uma bronca do patrão naquele dia. Trabalhava feito um condenado. A marmita era feijão com arroz, sem carne. Carne tá o olho da cara. Devia estar fraco e começou a variar.

TRÁFEGO

É, tem conversa demais sobre esse assunto. Melhor ficar quieto. Vou chorar o morto, tô indo lá agora, você quer ir? Depois a gente vai tomar uma no boteco do Chico.

tijolos

Anúncios

10 comentários sobre “Música para ler: Proparoxítona

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s