Oirã

Conhecimento não é sabedoria.

Oirã bate palmas para o berimbau e ri. Ele ri de raiva, de saudade e de vergonha, ele ri.

Oirã ri dele e de nós dois, ele ri para mim. As folhas do anajá balançam feito loucas quando ouvem o sorriso de Oirã. O rio, engraçado, fica calmo. Quietinho mesmo.

Não é possível esconder um segredo de Oirã.

Da fogueira o calor, riscos azuis entre vermelhos e laranjas secaram as folhas verdes e queimaram aos poucos o emaranhado de galhos que Oirã armou, para aquecer nosso domingo. Até aquele dia eu e Oirã não éramos mais que duas pessoas diferentes. O que eu mais amo, Oirã detesta. Eu, por mim, me jogava de roupa e tudo no rio. Mas Oirã, não. Primeiro ele se acocora na beirinha. Pede para eu fazer silêncio. Passa as mãos bem devagar na superfície da água, para entender não sei o quê.

Tem um bicho ali, não está vendo?

Eu não.

Ele está roncando, não está ouvindo?

Não.

Eu sei que o céu estava feito um breu. A lua gigante parecia uma moldura para a sombra escura e brilhante de Oirã. Nunca vi nada tão bonito.

Não se mexe.

Eu não ia mesmo mover nem um dedinho.

Você vai assustá-lo.

Toda vez que alguém diz que eu tenho que ficar parada, me dá uma coceira, uma vontade de tossir… Não suporto ficar calada, vou acabar me engasgando.

Então senta, e fala baixinho.

Conversamos toda a noite sem perceber que a lua foi subindo, foi subindo até ficar pequenininha. Teve uma hora que eu até vi uma estrela cair por de trás da cabeça de Oirã, mas não o avisei, eu só fechei meus olhos e fiz um pedido secreto.

Oirã parece um índio. Mostra para mim o tambor da mata. Da cabaça faz até uma cuíca: shc, shc, shc. Tudo que eu pergunto, ele responde. E diz mais: Você não pode ouvir os sons das coisas, tem que sentir.

Daquela vez em diante eu e Oirã ficamos amigos de verdade.

Um dia bati em seu peito com as duas mãos. Ele quase caiu para trás sem tirar os olhos de mim, e para não perder o equilíbrio abriu os braços e depois os fechou ao redor do meu vestido. Eu não sabia se ia ou se ficava. Porque eu e Oirã somos muito diferentes. Enquanto eu pensava, Oirã me abraçava, como se nada. Olhava bem nos meus olhos sem piscar e ria.

De repente eu percebi que estava gostando de Oirã. E me deu uma vontade enorme de ir embora.

Se você não fizesse o que faz, o que faria?

Eu não sei.

Você sente saudade?

Que som ela faz?

Vou descobrir.

Eternidade é um tempo que não existe. A lenha do fogão de barro aquece a lembrança daquele domingo. Mas a risada de Oirã… Que saudade!

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