A obsolescência do amor

Entraram no quarto, um pouco constrangidos pela súbita intimidade depois de tanto tempo. Havia o desejo e uma interrogação: o que estava para acontecer os levaria para onde. Por cautela, permaneceram em seus mundos particulares.

Ela começou sondando o quarto; ele pôs o celular no mudo. Cada um deixou para fora daquele quarto suas catequeses. Assim era o acordo quando decidiram esticar a hora do almoço. Conversa simples, direta.

“Vamos  passar a tarde juntos?”

“Vamos.”

Há coisas que podem ser simples num mundo complicado. O encontro casual no restaurante, conversa de elevador, e ali estavam com perfumes muito diferentes dos que usavam na adolescência.

Enquanto ela tirava os brincos, entre beijos, ele tirava a camisa. Pediu para usar o banheiro primeiro. Foi pragmático nos preparativos, como sempre foi na vida. Saiu do banheiro, cabelo molhado, cheiro de sabonete.

Era a vez dela pedir que esperasse um pouco. Demorou de propósito, estava intimidada com a ideia de, após anos, voltar a encontrar aquele velho amor.

Quando saiu, enrolada numa toalha com inscrição do Royal Motel, ele estava na cama, aguardando com mãos apoiando a cabeça, a vontade, a espera.

De costas, ela tirou a toalha.

“Continua linda.”

“Também senti sua falta.”

Adormeceram abraçados.

Ao despertar, a realidade impôs-se no silêncio – lembraram-se porque se separaram. Como a analogia de Heráclito sobre tudo ser transitório, ali perceberam que  não era mais possível banharem-se no mesmo rio duas vezes.

“Sempre foi tão bom, por que não eu?”

“Por isso mesmo, não queria te magoar.”

Ela queria Liberdade, agarrando-se nas tradições. Ele precisava de Segurança, arriscando-se com frequência. Algo foi corrompido no percurso. Panta rei.

Ela foi para o banheiro, batendo a porta. Saiu vestida, atravessou o quarto sem olhar para o homem que, poucos minutos atrás, representou seu ponto de fuga.

“Vou esperar no carro.”

Ele ficou mudo. Pensava em manter distância daquela mulher que brincava com a loucura.

Quinze minutos depois, cada um retoma suas vidas, frustrados, melancólicos, culpados, presos à noção obsoleta do amor.

 

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