Vida nova

No tarô, a morte é uma das cartas mais temidas para os desavisados. Trata-se de um ceifador esquelético marchando ou cavalgando sobre um campo de cadáveres. A carta é feia e assustadora, uma descrição que corresponde muito bem à morte real. Ambas metem medo, entristecem e nos fazem desviar o olhar. Contudo, também são necessárias e podem ensinar muito pra quem consegue encará-las de peito aberto. Para quem se dispõe a aprender, a carta da morte significa transformação e final de ciclo. Para mim, a morte do Sina trouxe exatamente isso.

Não é possível manter fundações antigas quando se encara a perda, seja ela qual for. A mortalidade testa limites, crenças, prioridades e sentimentos, arrastando como um tsunami tudo aquilo que não é solo firme. E quando de mim só sobrou esse solo, voltei a me reconstruir, não como continente, mas como ilha flutuante, capaz de seguir o movimento das ondas em vez de lutar contra elas. Um dia de cada vez lambendo a ferida recente que escancarou cicatrizes antigas, deixando o veneno sair e o sangue parado voltar a circular. Dias de casulo onde a vida chegava em sons através da névoa de introspecção. Até que abri os olhos e vi o caos que ficou. Coube então a tarefa de ajeitar a bagunça, um tantinho a cada dia.

Uma das coisas que percebi quando saí do limbo foi que eu não era a única criatura perdida depois do dilúvio. Todos os habitantes da casa estavam tão deslocados quanto eu. Todos sem saber o que fazer com o vazio deixado no espaço-tempo dos vivos. Humanos e felinos em estado permanente de tensão. Tire uma peça e a torre de blocos desaba. Era preciso reconstruir, mas já não havia peças suficientes, nem pra ser como antes (pois o antes era o nunca mais) e nem pra equilibrar uma nova estrutura. No entanto, viver à sombra da perda também não parecia uma boa opção para a nossa familinha. De modo que decidimos buscar um novo elemento, um que renovasse as energias e mostrasse outros espaços, além da cratera que a morte deixou.

O plano era achar outro felino. Não como o Sina, que é insubstituível, mas um que se adaptasse à nova realidade. Um que soubesse se defender das recentes brigas pelo cargo de macho alfa e que, ao mesmo tempo, pudesse ser carinhoso com quem estivesse carente. Se não fosse com a minha cara, tanto melhor. Não sei se saberia lidar com afeto naquele momento.

Procuramos. Pedimos sugestões. Não tínhamos certeza nenhuma mas, em certo momento, ficamos com dois candidatos em potencial, que visitaríamos em dias distintos. Não chegamos à segunda visita.

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Ray é um filhotinho sialata caolho. Eu não queria um filhote. Eu não queria outro macho. Eu não queria gostar dele. Nesse espírito, cheguei no lar temporário tentando asfixiar brutalmente toda e qualquer expectativa que pudesse aparecer em mim, mesmo percebendo que já era uma batalha perdida. Minha última esperança de resistir ao apelo felino era o outro humano da relação, aquele que conseguia pensar de forma prática sobre questões de ordem emocional. Meu marido.

Assim fomos ao lar temporário num domingo de garoa, com um misto de ansiedade, curiosidade e medo permeando a conversa durante o caminho. Será que foi uma boa ideia? E se ele nem olhar na nossa cara? O que estamos fazendo? Uma especulação atrás da outra, mesmo depois de tocar a campainha. Tudo acabado no momento em que sentamos no chão e aquela pequena bolinha de pelos se apossou dos nossos colos e nossos corações. Em poucos minutos já arranhava e mordia minha mão sem a menor cerimônia, puxava meu colar de bolinhas e ameaçava gatos residentes que tentavam se aproximar. Bandeira branca. Rendição. Gatos encrenqueiros são meu ponto fraco. A única salvação era meu parceiro de crime. Em silêncio eu pedia que ele dissesse alguma coisa, qualquer coisa que me deixasse soltar a respiração novamente, fosse num suspiro de alívio ou de decepção. “Podemos levá-lo hoje?” foi o que falou. E aquele hoje foi há 18 dias e uma existência atrás.

Agora é vida nova apesar da saudade antiga. É acostumar com outra rotina, outro tipo de caos feliz na casa, outro peso no meu colo, outra cabeça no meu travesseiro e outro pedaço do meu coração ocupado por um amor que eu não sabia se podia oferecer. No fim, a morte tira a gente do chão mas, quando voltamos a andar, ela nos ajuda a encontrar outros solos férteis onde coisas boas podem nascer.

Obrigada por nascer em nossas vidas, pequeno Ray.

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