Escafandro

A porta está próxima, não mais. Escapa a vontade de chegar até a saída. Melhor sentar no sofá, não, melhor deitar no sofá, as lágrimas não secam, dor de cabeça, é só um jeito de paralisia, não fique tonta, mantenha a cabeça ativa, mantenha a memória, o médico disse que passa, e médico é aluno que sempre tirou dez, eu acho, só preciso tomar a medicação, ele disse para esperar um ou dois meses, morro antes disso, não quero comer, obrigada, não quero falar também, está frio, fecha a janela, está quente agora, melhor abrir só um pouco, o suor é um jeito do corpo lembrar o mar, o medo corrompe o pensamento, beber água, preciso lembrar de beber água, quem é essa, espelho não, nunca mais um espelho em casa, vejo meus ossos, vejo olhos apavorados e desesperança, espelho serve apenas para esclarecer que perdi o jeito de ser gente, não sou o que eu imaginava, aos sete queria ser astronauta, hoje estou presa num escafandro, dor de cabeça, sinto que o fôlego falha, tem um nome que nunca deve ser dito, vai me afastar de tudo, eu quero, quero mesmo por um fim nisso, como será por um fim na vida, esse capacete está furado, tá entrando água, não consigo respirar, uma bolha, um ouvido rouco, não quero levantar, não quero nada, me esquece, faz quanto tempo mesmo, um mês, já era para o remédio fazer efeito, minha boca está seca, vou vomitar, não sai nada, um nó na garganta, tem alguma coisa grande na garganta que me impede de respirar, parece arroz, sem espelho, exame de novo, mais um, quero morar debaixo da cama, deitar no chão, entrar no chão, essa é a sensação de ser enterrada viva, as mãos, para de chorar, por que essa lama toda em meus pés, por que essa areia movediça, medo, vou fazer xixi, vou fazer nas pernas, ninguém vai entender mesmo se contar, minha cabeça está ruim, meus pensamentos fugiram do comando, sou duas, três, cada uma quer ir para um lugar, estão me matando, vou perder o juízo, já perdi o controle, não enfrento, caí no abismo, meu escafandro está rasgado nas mãos, não vê que entra água e eu sufoco, o mundo é uma ilusão de ótica, sem controle, sem certeza, só dor, na nuca, posso pegar uma faca ou uma tesoura, aumenta a dose, não posso, não posso, comprimidos, vou vomitar, escuto o fundo do mar, som escuro, a vida é morte, não para de chover, dois meses, internada, alguém se matou depois disso, bicho de sete cabeças, drogas, tem remédio intravenoso para isso, é uma pergunta, ninguém me responde por que dei para falar para dentro, sem pontos, uma sucessão de vírgulas, nada concreto, ilusão de futuro, fui até onde podia, nada mais, não mais, quero falar mas não consigo, uma infinidade de letras juntas fazem um romance, uma das letras sou eu, sem coragem, não tem nada por dentro, um imenso vazio, uma cegueira branca, uma cegueira de luz, Saramago, não quero ouvir, nem ver, gosto da madrugada de segunda para terça, todos dormem, todos dormem menos eu, gosto da madrugada, o tempo é só meu, sem solidão, é solidão por dentro, solidão de vida, um esforço que não cabe em mim, estou mostrando minha cara, não vê, sem espelhos, segura minha mão, quero só respirar agora, diminui agora, mas usa para sempre.

French-Free-Diver

Guillaume Néry mergulhando sem a ajuda de aparelhos para o fundo da maior cratera subaquática do mundo, em Longs Island, nas Bahamas. Sobreviveu.

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3 comentários sobre “Escafandro

  1. Muito forte , me assustei , quem já passou por algo parecido vê que não está sozinho. Quanto a narrativa como sempre prende de não piscar . Parabéns Ariana . Vc sempre surpreende

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