Terreno baldio

Supôs que se garimpasse aquele terreno lodoso, no emaranhado de raízes da melancolia, acharia uma pepita muito rara, de alegria e presença. Começaria arrancando as ervas daninhas, gentil. Depois com as próprias mãos removeria a terra, as pedras, as larvas, os medos, as culpas, as ilusões. Cavou sentindo a alma abrir. Toda a terra de que era feita. Toda a densa matéria que percorria seu corpo, seus pensamentos e sentimentos. Extenuada, sentindo a lama escorrendo por entre os dedos, como velas, chorou. Era a terra cavando a si mesma, buscando a mais fina essência, a mais pura substância capaz de lhe conceder vida longa, passos firmes, flores ao acordar, o perfume delas ao dormir.

Às vezes despertava do sonho, cheia de medo.  A vida tantas vezes lhe pareceu o maior perigo de todos, embora fosse absolutamente inevitável. E por ser inevitável ela vivia. E por ser surpreendente gritava de alegria sentindo sua pele arrepiar, numa deliciosa orgia do corpo. Cerrava os dentes antes de abrir o sorriso. Temia, amava. Temia até o próprio amor que de tão imenso, era o mar, só que infinito, onde nadava e depois do mergulho saía cheia de sal.

Sabia que vida e morte eram amantes inseparáveis e sabia que depois do mergulho no profundo de si, veria a luz e voaria como pluma.

Após toda a terra e medo arrancado e transformado em palavras, encontrou o que havia procurado sem saber. Ali, na geologia do coração, entre as escarpas da mente, a fonte se abria próxima às clavículas do nada. Território neutro. A água brotava em rodopios limpos, formando figuras geométricas como fractais. Sorveu da imagem, do som, colocou a ponta dos pés, então as pernas e assistiu ao vazio ser preenchido. A sede voraz finalmente saciada resfriou a alma em brasa, renovando  todo o átomo de que era feita.

Todos brilhamos, dizia John Lennon, como a lua, as estrelas e o sol. Pó de estrelas, é o que somos, dizia outra canção. A vida é grande e nós, pequenos no meio dessa vida que não acaba nunca. A vida é tão maior do que o que eu ou você queremos, ou achamos que queremos, ou que somos e achamos que somos. A vida, meu amor, é incomensurável e incontrolável e quero ela toda me ocupando

Um pássaro faz um som alto. Não o vejo. São duas notas bem agudas, a primeira é mais grave que a segunda.

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4 comentários sobre “Terreno baldio

  1. O primeiro pé no beiral me faz refletir sobre o coletivo que nasceu de outro coletivo, numa auto reprodução inata das artes, o estranhamento de prazer-vitae que me toma ao conhecer os Visceralistas é um fulgor de continuar a escrever e conhecer os tanto as grandes escritores que estão no caleidoscópio doa dias. Satisfação! Salve Visceralistas!
    Arrisco um segundo passo e do alto, com asas de Ícaro, contemplo o Terreno Baldio onde Tantos dança com a pulsão da vida, por entre incógnitas oníricas, vejo unas sangrando ao cavar e cavar. O toque de Midas agora transforma tudo em pó de estrelas que decompõe a realidade em (im)prováveis esperanças. Novas letras que vertiginam meu ser múltiplo.
    Intensas e deliciosas palavras Melissa! Parabéns!

    Curtido por 2 pessoas

  2. Poético e forte.
    “Sabia que vida e morte eram amantes inseparáveis e sabia que depois do mergulho no profundo de si, veria a luz e voaria como pluma.” Lindo demais!

    Curtido por 2 pessoas

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