Infância: Cururupu

Guarás, garças e anuns sobrevoam o cais marcando o silêncio das águas calmas, e embelezando o mangue com as cores da nossa bandeira. O ponteiro que nunca saiu do tic deixou a cidade presa no tempo que eu era eu.  

As ruas não têm nome ou números, não são divididas por quadras, mas por famílias. As coisas acontecem com a vontade de Deus, e no nosso tempo. Lento.

Meu avô saía cedo, bem cedinho. Levando enxada, saco de juta e disposição, me deixando um beijo enrugado na testa. Vovó costurou para mim uma boneca de pano, com cabelos crespos como os meus, feitos com a palha do milho que vovô trazia.

Sentada no muro da casa que nasci, olhei o mundo inteiro ir para lá, vir para cá. Feito uma canoa, ou uma rede. Na minha noção de felicidade as pessoas andam de mãos dadas, se empanturram de farinha, se agacham para ficar na altura dos olhos das crianças e prestam atenção nelas. Sempre é tempo de semear, e de colher. Os pequenos sabem que o mar não tem fim. Sabem porque a concha guarda o som das ondas. Conhecem o segredo da terra, do ar e das águas. Como os velhos.

Aí vêm os cavaleiros: chapéu, cinto, chicote e bota. Tudo de couro.

O sabiá da mata não sente como o sabiá da praia. De Alcântara à Carutapera se ouviu falar desse sentimento, mas só sentiu mesmo quem escutou o som da rede antes de cair no mar: ffss shh. Quem descobriu o segredo da pesca, aprendeu o tempo das águas, a ler a lua, a remar calmo. Quem coçou o lombo do jumento. E ouviu o grito desesperador na morte de um porco.

Animais matam por fome.

Meu pai fez uma fogueira para esquentar o couro de macaco vermelho do tamborinho. Para o tambor onça: couro de veado carioca. Mamãe cavou o aceiro antes de tocar fogo na mata. Minha irmã, prevenida, saiu arrancando as pequenas árvores.

Arrancou, mas deixou raiz.

Meu amigo e eu escrevemos um livro com mil páginas em branco. Um menino nu, da pele preta como a noite, envolvia o fino corpo com seus próprios braços. Explicou esse abraço, mas não entendi. Me ensinou então a construir uma casa sem muros, segura. Se eu resolvesse fugir, não precisaria pular nada.

Troncos à beira da estrada de betume e brita. A lua sugou toda a luz do sol para ficar cheia e iluminar mais do que sempre os eventos que aconteciam ao mesmo tempo em lugares bem perto, onde ninguém se via. Lua amarelinha que passa de um lado a outro a cada curva da estrada que percorro. Me deparo com a ponte. Tábuas pregadas sobre caibros, lado a lado, começam a balançar. Um cortejo vem trazendo o dia. Em meio à cavalaria meu pai e meu avô puxam um cavalo cego, branco e forte. Diamante cavalga dentro de mim. Da minha mãe, da minha avó e no peito de três gerações antes das suas, mas não posso montá-lo. Nem minha irmã entende.

Ouço o grito do meu amigo. De repente uma vela surge por baixo da ponte. Sem tirar a vista dos olhos brancos do cavalo me jogo no rio, seguro a corda atada no barco e sou puxada por ele. O rio corre, escorre. Hasteamos a vela, atravessamos o furo, o vento decide para onde vamos.

Levanta, levanta bem alto!

Não olho para trás. O menino está de pé, firme como um marinheiro. Um fio de luz contorna seu cabelo crespo. Aos seus pés um cofo e dentro dele um buraco negro onde me jogo. Mergulho na penumbra e fico lá por muito tempo.  Navego, navego até encostar meus pés num chão barrento e melado. O ar cheira a milho, as paredes são de palha e fazem cócegas nas minhas costas. Um ponto de luz roxa atravessa o buraco que cavei caminhando em círculos. De cócoras espio o outro lado e o menino agora é um velho, que acalenta a minha boneca. Aperto os olhos: o menino. Fecho e abro: o velho. Volto para o barco o mais rápido que posso.

Meu amigo foi embora e me deixou sozinha.

O silêncio sai do bico de um pássaro: puú, puú, puú.

Uma dezena de barcos enfileirados com velas brilhantes passa por mim. Esperem, esperem por mim! Meu avô diz que reza forte é reza de quilombo. Meu pai, que o mundo se ajeita sozinho. Diamante cavalga em meu peito, enquanto ancoro meu barquinho no cais da cidade.

Cururupu foi o quintal da minha casa e é hoje toda ela quando sinto saudades minhas.

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