Infância: Ainda bem que acaba

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Sim, sempre fui assim adorável

Quando ficou decidida uma rodada temática sobre a infância, só o que consegui sentir foi um misto de pavor e ranço. Não que minha infância tenha sido pavorosa, eu só não acho que essa fase é essa utopia perdida que dizem. Portanto, como tenho que falar dessa jabirosca de infância, tem uma ou outra coisinha que acho importante dizer sobre esse período tão idílico da vida. E não vai ser meigo!

“As crianças são o futuro”

Não, cara pálida! O futuro é tempo e crianças são pessoas. Se um meteoro cair e matar todo mundo, ainda assim o futuro vai existir. As pessoas só vão pegando carona no bonde. Mais que isso, as pessoas podem morrer a qualquer momento, independente da idade. Ninguém garante que uma determinada criança pode viver mais que um idoso. Fome, doenças, violência, tragédia, crianças também passam por isso e com o ônus de serem mais vulneráveis. Desastres à parte, sei que em geral essa frase é dita quando queremos discutir sobre o mundo que deixaremos para as futuras gerações. Penso que Marie Curie também sonhou com esse mundo melhor enquanto se matava estudando a radioatividade. Também imagino que ela deve ter se revirado no caixão quando viu que, pouco depois de ir pro além, as crianças e jovens de sua época, depois de crescerem, usaram suas descobertas na fabricação de armas de destruição em massa. Do jeito que as coisas são, crianças não podem nem decidir sobre o próprio presente, é sacanagem empurrar a bucha do futuro para elas. Se o que há de vir é preocupante, só o que podemos fazer é não bagunçar mais e tentar tomar boas decisões, começando já e pelo próprio umbigo. Chega de jogar expectativa em quem nem nasceu direito!

“Nada como a inocência das crianças”

Muito legal falar isso. A inocência, a pureza, a imaginação e, por vezes, até a honestidade brutal, todas qualidades admiráveis. Todas mutiladas ainda cedo, em geral por adultos próximos, mais preocupados com a própria agenda do que em cultivar a boa índole infantil. Quando alguma delas sobrevive, chega um momento em que não é mais tão fofo assim. Quer um exemplo? Tenta ser honesto numa entrevista de emprego. Ou tentar tomar licença poética no trabalho e escrever relatórios que sejam interessantes de ler. Ou acreditar quando o crush diz que aquela ida ao motel é só pra conversar com mais privacidade. É triste mas o mundo não favorece essas virtudes. Talvez a sacada seja ensinar as crianças a sobreviverem à própria inocência. Ou quem sabe tentar manter, quando adultos, algumas dessas características vivas. O que não dá é pra admirar esses atributos só pra pisar em cima depois. Coerência, é bom, né?

“A gente era feliz e não sabia”

Algumas pessoas até podem ter sido felizes, mas eu, que cresci sendo lembrada sobre as pobres crianças que não tinham o que comer enquanto enrolava pra terminar meu almoço, era tão (ou menos) feliz naquela época quanto sou agora, mesmo com contas a pagar. E isso porque não me faltava comida. Não vou nem discorrer sobre crianças forçadas a trabalho escravo ou que sofrem algum tipo de abuso porque, mesmo na infância, não há limites para o pior. A questão é que, como já mencionei, crianças são pessoas e, olha só que coisa, pessoas não ficam felizes o tempo todo. Devo fingir que foi tudo lindo só porque eu tinha mais tempo de férias? Talvez eu devesse, mas não o farei. Eu não gostava de ser forçada a brincar com todos os “amiguinhos” que me empurravam, porque muitos eram uns malas e uma delas vivia me batendo. Eu tinha medo de palhaços, de borboletas, de cães bravos, dos meus bonecos, da loira do banheiro e do Snoopy. Tinha mais medo ainda de pensar na morte de pessoas queridas, incluindo o pai do Rei Leão. Odiava minhas festas de aniversário cheias de gente grande e dos tais amiguinhos que quebravam minhas coisas. Detestava o bolo decorado dessas ocasiões e preferiria mil vezes que tivesse só brigadeiro. E mais do que qualquer outra coisa, odiava ter adultos decidindo tudo por mim sem que eu pudesse dizer nada a respeito. Sim, as coisas eram mais simples naquela época. Mas também eram bem mais assustadoras, com gigantes, monstros e o assombro em cada pedaço decifrado de realidade. Prefiro deixar tudo isso no conforto do passado.

“A infância devia durar pra sempre”

Sério mesmo? Se a ideia aqui é dizer que a sociedade estaria melhor se não houvessem adultos, recomendo a leitura de “O senhor das moscas” e uma reflexão mais profunda sobre o tema. Por outro lado, se for apenas uma forma de demonstrar saudosismo, também acho que vale pensar melhor. O que havia de tão bom assim que não podemos mais ter? O que nós éramos e já não somos mais? O que ficou perdido e o que ganhamos em troca? Será que é mesmo preciso voltar atrás para aproveitar a vida? Eu acho que não. Mas talvez quem acompanhou a crônica até aqui pode pensar que sou uma adulta amarga e sem infância, portanto sem moral para discutir o assunto. A verdade é que sou grata à criança que fui e, mesmo depois desse textão, talvez eu tenha sido a pessoa que mais a amou. Gostava tanto dela que a deixei aceitar quem era, aprender com a vida e crescer. E gosto tanto de quem ela se tornou que me permito dar asas a seus sonhos e ajudá-la a trilhar a vida à sua maneira. De resto, só se é criança pra sempre quando se morre cedo ou quando se deixa de evoluir. Fico aliviada de ter sobrevivido a ambos até o presente momento.

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9 comentários sobre “Infância: Ainda bem que acaba

  1. Adorei seu texto. Eu tenho um carinho pela infância por estar ligada a ela até pouco tempo pelos filhos e amigos dos filhos. Gosto de literatura infantil, pesquiso sobre educação e tecnologias. Concordo que infância nenhuma é perfeita. Também tive meus medos e sofrimentos, como a maioria das pessoas. Acho péssimo quando se referem às crianças como alguém que ainda não é, mas vai se tornar. Eles já são. Parabéns pelo texto. Beijos

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    • Puxa, que bom que gostou! Super concordo com o que você disse, crianças já são alguém e talvez boa parte de proporcionar uma infância feliz pra elas seja reconhecer isso e tratar os pequenos com dignidade. E aproveitar cada fase da vida da melhor maneira, que logo tudo passa! 🙂

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  2. Acabei de conhecer seu texto e o blog. Gostei muito. Este sobre a infância me pegou de jeito, porque me identifiquei profundamente com as experiências e sentimentos. Quando digo “ainda bem que acabou” sobre a minha própria infância, sempre causa desconforto. Vou me jogar no blog. Um beijo.

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    • Olá, Júnia! Fico feliz que gostou do blog ❤
      Confesso que também fiquei um pouco desconfortável quando comecei a escrever pois é sempre difícil falar dessa fase da vida sem aderir à romantização que vemos por aí. Mas é importante dizer que nem tudo é lindo, justamente pra tentar melhorar um pouco o que não vai bem, né? Beijos e espero que aproveite os outros textos 😉

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  3. Muito bom, moça. Adorei seu texto. Sincero, firme. Amargurado, não. Lúcido. Nem todo mundo tem a infância perfeita que a TV mostra, né? Bom seria se a gente fosse capaz de preservar a inocência dos pequenos… Essa capacidade de se admirar com o mundo, com as coisas, as pessoas. O resto é fluxo e tem prazo de validade, como a gente. “Ainda bem que acaba”, isso aí! Parabéns!

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    • Obrigada, Fabiana! ❤
      Realmente seria bom carregar essas capacidades boas da infância pelo resto da vida, né? Acho que esse é o desafio e é isso que ajuda a fazer as pazes tanto com a parte ruim do passado quanto com as dificuldades das outras fases. Pegar aquilo que cada etapa traz de bom, aprender com o que foi ruim e seguir esse fluxo! 😀

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