Infância: Cometa Halley

cometa.jpgAparecia sempre no final do dia, às vezes já tarde da noite. Tomava uma sopa, depois colocava várias frutas num prato e ia comer em frente à televisão. Apoiava os pés na mesa de centro. Quando  tentava mostrar meu novo desenho, me mandava ficar quieta porque estava assistindo ao Jornal Nacional.

Um dia parei pra ver o que era tão mais interessante do que eu e minha arte, quando um homem muito sério, com a voz reverberante como a de um tambor, mencionou que em breve um cometa, de nome Halley, poderia ser visto da terra enquanto cruzava o espaço. Houve muitos depoimentos acerca da importância daquele evento celestial. A informação grudou na minha cabeça como algo misterioso e belo, além de raro, raríssimo, algo que valia a pena ser visto.   

Desde aquele dia só desenhei cometas, os via  na comida, no vidro dos carros, nas falhas do piso da cozinha. Não sei dizer se era a única, ou se a ideia pairava no ar e se escondia na água que a gente tomava. Sei que me apossei daquela novidade como se pudesse transformar minha vidinha banal em algo muito fantástico. Me tornei uma menina monotemática, enchi meus pais com perguntas que eles não sabiam responder, perguntava aos professores e puxava assunto com os colegas.  O cometa nem tinha passado e já mexia com a minha cabeça.

O tempo era 1986, eu tinha oito anos de idade, cabelo a la Chitãozinho e Chororó, dentes recém nascidos e uma mente inquieta. O colégio era pequeno para mim, o apartamento em que morávamos era um cubículo incrustado entre outros cubículos. Nossas janelas quase se fundiam às dos vizinhos.  Ainda por cima havia as grades que pretendiam evitar malfeitores e limitavam ainda mais a visão do céu e consequentemente a remota chance de ter o Halley desenhado em minha retina.

Quando não estava na escola, me empoleirava no pequeno espaço do parapeito da janela, com a cabeça encravada entre as grades olhando para  aquela possibilidade mínima de céu. Descobri que não era a única. Nas janelas do prédio da frente, tão próximas da minha, meus parceiros de brincadeira também aguardavam a passagem do cometa. Ainda não éramos reféns do tempo, mas donos dele.  Ontem, hoje e amanhã eram uma única realidade condensada no tempo presente, sempre presente. Mas o Halley nunca, nunca passava, ao menos não no pequeno céu daquele conjunto residencial.

O imaginava grande e amarelo, como um sol de dentro do qual emergia uma cauda colorida como um arco-íris, onde poderia montar como a um cavalo, para viajar pela via láctea que recém tinha aprendido na aula de ciências.  

Numa outra noite, o pai chegou cansado como sempre, deu um beijo em minha testa, tirou os sapatos e se acomodou no velho sofá para assistir às notícias. Ao contrário do que eu supunha, Halley tinha aparecido durante uma semana inteira, as imagens eram ampliadas na televisão e mostravam algo que parecia apenas uma lanterna em movimento num quarto escuro, muito aquém daquela figura onírica pintada por mim. Agora, dizia o mesmo senhor retumbante, só poderemos revê-lo em setenta e nove anos.

Aninhei minha cabeça no peito do meu pai e chorei muito, até deixar sua camisa de flanela com o cheiro do dia, ensopada de lágrimas. Ele não entendia, mesmo assim me abraçava. O cometa havia passado, onde eu estava nessa hora? Como pude deixar de presenciar aqueles instantes? Lamentei minha distração como se tivesse perdido o último trem que me levaria de volta para casa. Halley nunca mais passou, mas talvez venhamos a nos reencontrar em algum ponto da galáxia, daqui a cinco décadas.

*Desenho ilustrativo de Francisco Schaikoski Menk, meu filho de 7 anos.

Anúncios

11 comentários sobre “Infância: Cometa Halley

  1. Belo texto, Mel
    Reflete a alma pura da criança e a infância que nem sempre é considerada neste contexto social que vivemos.

    Curtir

  2. Que texto lindo Mel!
    Não cheguei a criar tantas expectativas com o cometa Halley, mas ele também fez parte da minha infância.
    Saudades deste tempo, de quando a passagem de um cometa nos bastava…

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s