Infância: Nuvens na cabeça

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Foto @seen.11 Instagram

Era hora do recreio. A menina de seis anos estava em seus devaneios, marcando as bordas dos papéis de carta com seus dedos sujos de lanche, quando um coleguinha, muito empolgado, contou-lhe sua primeira viagem de avião. Disse que abriu a janela, pegou uma nuvem e a guardou numa caixa. O olho dela que nunca foi pequeno cresceu de encantamento, mas não quis dar o braço a torcer. Perguntou cética:

“Cadê a nuvem? Me mostra!”

Ele disse que não poderia, a nuvem choveu e dissolveu-se. Ela fez uma careta de chateada e saiu pensando seriamente: Quando eu viajar de avião, levo minha própria caixinha e vou colecionar nuvens de muitos tamanhos e vou trazer todas para o colégio antes que chova. Arlete e Arlene, as amigas gêmeas, ficariam loucas.

Já sentia a textura e até o sabor de algodão-doce das nuvens. Elas eram doces, e quando uma nuvem chovia, a chuva também era doce. Sim, ela sabia por que experimentou chuva, sujou os pés de lama e subiu em árvores altas. Precisava falar com Carla Sampaio sobre a história das nuvens, mas já estava distraída, marcando as digitais na coleção de papel de carta da outra colega.

“Quer trocar? Tenho um bloquinho desse.”

Os papéis eram lindos e coloridos e ela poderia trocar por dois e um deles seria usado para escrever uma carta para a prima que morava longe. A parte ruim é que sua letra nunca foi das melhores. Por mais que fizesse cachinhos no A, não ficava bonita como a da prima.

Foi o tempo da professora entrar na sala e explicar que naquele dia a aula era de produção de texto. Mozart na radiola e alunos quietos. Seu pensamento deu um salto das nuvens para o papel pautado. Sobre o que vou escrever, perguntava-se enquanto comia a ponta do lápis. Posso falar sobre as árvores do sítio, afinal comeu jamelão no pé, que no começo tem gosto azedo e no final trava a língua. Mas gostava mesmo era de comer folha de umbu no umbuzeiro que fora plantado numa montanha no fundo da casa. Montanha é jeito de dizer. Três passos do pai e a árvore era alcançada. Dez passos seus, alguns escorregões e um galhinho novo com folhas verdes ia da mão para a boca. Sabia que tudo numa árvore era bom. Qualquer um poderia experimentar, era só sentir a textura do caule do pé de pitanga; os galhos finos da vinagreira; as folhas pintadas do pé de cajarana; as flores do pé de jambo que quando caem fazem o tapete mais lindo do universo; e a manga verde comida com sal, escondido da mãe, claro.

Mas a professora falava algo:

“Vocês vão escrever sobre o passeio no jardim zoológico.”

Fez cara de ah, mas tudo bem. Todos os bichos que viu no passeio ao zoológico municipal rodaram na cabeça da menina. Sua imaginação era como balão de aniversário, cada estímulo era um sopro e a bola elástica ficava mais cheia, até que explodia com estouro e susto, e surgia uma nova ideia. Vou falar sobre as cobras no tanque, a girafa que parecia doente, o dromedário (que não sabia direito o que era), os pássaros coloridos e os macacos, seus preferidos. Fez daquela redação um manifesto contra as grades e os animais presos. Imaginem que os macacos prego, sem cipós, ficam pendurados em correntes, escreveu. Caprichou na letra e no cachinho do A maiúsculo.

Sua saltitante imaginação era assunto em casa.

“Está pensando em que, minha filhinha”, perguntava a mãe.

“Na vida do patinho”, respondia a outra como uma grande questão filosófica.

Essa menina é esquisita! A faxineira varria confusa.

A mãe compartilhava com o pai algumas impressões:

“Deve ter repetido o que viu na televisão”, falava o pai sem tempo para coisas de criança.

Assim viviam todos sem saber onde essas coisas da menina iriam parar, até chegar o aviso do colégio.

“Mãe, chegou um bilhete da professora”, mostrava o papel, enquanto sacudia a conga cheia de areia do parquinho no quintal – estava juntando para ter sua própria praia.

“Meu Deus! O que aconteceu?” Mãe sempre pensa o pior.

Abriu o recado da professora. Era um convite:

Mamãe, a redação de sua filha foi escolhida para fazer parte do livro do colégio e a tarde de autógrafos será no domingo.

Traje: Sítio do Pica-pau Amarelo

Parabéns!

Profa. Tânia

A mãe começou a chorar e a apertar a filha num abraço. Enfim existia um lugar onde tanta imaginação poderia habitar.

“Quero ir de Emília”, falava espremida no abraço molhado.

A menina foi crescendo e suas pernas ficaram compridas como as dos adultos que conhecia de baixo para cima. Virou uma mulher que escreve um A maiúsculo sem enfeites. Contudo, toda vez que viaja de avião há sempre um impulso de levar uma pequena caixa na bagagem para, se acontecer uma brecha, pegar uma nuvenzinha e quem sabe vê-la chover na palma da mão.

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4 comentários sobre “Infância: Nuvens na cabeça

    • Verdade, tia Lola, escrever é um exercício que busco em minha criança, afinal ela escreve muito melhor…rs… Bjs,

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