Prelúdio

Rosto coberto e olhos de fora. Um segundo é o bastante para reconhecer alguém que se perdeu há um tempo sem medida.

O milagre da escrita é poder formar palavras. Meu filho, o negrinho que ainda não nasceu vai aprender a ler e escrever, mas não fará uso das palavras para se comunicar comigo. Não será preciso. Mas o menino, o meu menino, saberá usá-las com os outros. Para mim ele dirá a palavra que lhe der prazer: jabuti, cabaça, cuia, coturno de couro cru, contraste, pavor, amor, ardor, adeus, amém.

Não darei ouvido a elas, ficarei atenta aos seus olhos. Será o suficiente.

O medo tem uma força tão grande. Ele é capaz de coisas que nem sabe. Você o conhece? Não chegue perto, é perigoso.

Estou grávida há não sei, perdi as contas. Quanto tempo pode durar uma gestação? Um mês, dois, três, mais? Bordarei enquanto espero. Plantarei maniva, depois que der de comer ao cavalo. Quando criar batata arranco, descasco, cozinho, dou de comer ao cavalo e replanto. Adubo, cultivo, colho. Uma hora esse menino nasce.

Meu filho será um homem de coragem. Desses que vão chorando, mas vão. Que levantam depois de cair, mas saem do lugar. Dos que plantam e colhem. Que aconchegam no peito e deitam no colo.

As patas do meu cavalo são livres de ferradura. São elas que o levam a qualquer parte. Como os meus pés descalços, que caminham ao seu lado. Juntos desenhamos pegadas em qualquer chão.

Dei luz a uma alma azul brilhante, de pele preta. Meu negro, meu negrinho. Nasceu falando, pedindo que eu fosse somente dele. Não sabe que sua alma está ligada à minha? Antes mesmo de tê-lo em meus braços, não fui de mais ninguém. Leio seu olhar e ele aprende a ler o meu.

Dou de comer ao cavalo, e ao menino. Em pouco tempo ele aprende a caminhar e a se calçar, sozinho. Ata e desata seus cadarços. De longe posso vê-lo.

Durmo ao seu lado e sonho.

O mar é lenitivo para mim e para ele. Quilômetros de areia acariciam seus pés cansados. Vi a paz brilhar em seus olhos, a mesma que descansava os meus. Para chegar, é preciso ir. Aprenderemos juntos a somar, exatamente para aprendermos mais. Com lápis e papel poderemos desenhar um lugar, uma história. Se o negro, o meu negrinho quiser, poderá iluminar nossa casa, nossa rua, nosso lugar. Nossa casa? Nossa rua? De que lugar? Não importa. Meu lugar está dentro de mim, seu lugar está dentro dele. Mas o menino não sabe. Essas coisas não se ensina, se aprende sozinho.

Caminhamos noites a fio: plac, plac, plac. No lombo um pilão, na cabeça um pote, nos pés coturnos: cada um com o seu. Avistamos uma fogueira na beira do cais. Gente cantando, sussurrando, falando. Palavras iam e vinham das bocas dos outros. Corriam soltas, dispersas, velozes, assustando o meu filho. Então ele se desatou a falar também. Falou sem parar, sem parar para ouvir o que estava dizendo ou ler os olhos de quem estava ouvindo. E falou tanto que seus lábios grossos se alargaram tomando conta de todo o seu rosto, deixando só os olhinhos que embranqueciam aos poucos. Rosto coberto e olhos de fora. Meu Deus, logo ele, justo ele que se comunicava comigo através do olhar.

Não feche os olhos, meu negro. Não feche os olhos. Meu filho, meu negrinho, olhe para mim. Você não vê, menino, você não vê? O medo torce teu umbigo pelo lado de dentro. Aperta a minha alma, a alma azul brilhante do meu filho. E ele cega. Meu preto, meu negrinho, meu menino.

A dor tem uma força tão grande. Ela é capaz de coisas que nem sabe. Você a conhece? Não chegue perto, é perigosa: jabuti, cabaça, cuia, coturno de couro cru, contraste, pavor, amor, ardor, adeus, amém.

DSC_0871

Anúncios

3 comentários sobre “Prelúdio

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s