Barcos de papel

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Primeiro o ar fresco da manhã, o cheiro de grama, o orvalho evaporando, nuvens se dissipando lentas, transformando o céu nublado num outro céu, azul. Prenúncio de um dia bom. Respiro fundo o aroma de mil folhas se espreguiçando.

As crianças aparecem de pijamas na sala, sonolentas. A sua volta todos os sonhos da noite, toda a esperança de futuro. Remelas nos olhos.

Os cachorros pressentem nosso despertar e latem queremmmnnbndo atenção do outro lado da porta, desesperados por nossa presença humana como se fossemos água ou oxigênio.

A pequena deita com a cabeça do lado esquerdo do sofá sobre a almofada estampada de rosas vermelhas, me pede o leitinho. Todos os dias é assim e não toma se não for do lado esquerdo e se não tiver a almofada com as rosas vermelhas debaixo da cabeça. Nenhuma outra serve. Francisco está silencioso, olhos abertos, absorto nas fibras do sofá cinza. Pergunto se quer seu nescau, a voz dele ainda dorme,  não consigo ouvir, suponho que tenha dito não.

Leitinho na barriga, a vontade de brincar aparece, mas os cabelos de Catarina são uma cortina sobre seus olhos. São muitos, castanhos, brilhantes, lisos, pesados e grudam no rosto, nos olhos, na boca. Posso arrumar seu cabelo, filha? Não. É o mantra do momento. Talvez pretenda achar os contornos de sua identidade ou talvez apenas reproduza os nãos que recebe, o fato é que não vou conseguir fazer mais nada se não prender aqueles cabelos dela, a casa vai seguir caótica como meus pensamentos, vou queimar o almoço, vou tropeçar nos brinquedos, é possível que o sol até desista de brilhar.

Senta aqui filha, essa escova é mágica, não vai doer, rapidinho, vem. Não, não, não. Amor, você vai engolir teus cabelos, pode engasgar, dar dor de barriga. Não. Em tom de ameaça, último recurso, digo que vou contar até três,  se você não vier vou ai te pegar. Um, dois, t…. tá bom mamãe, mas não puxa meu cabelo. Mamãe vai fazer o possível pra não puxar tá? Mas parece que uma bruxa andou por aqui (sem perceber repito o mesmo discurso que minha mãe aplicava para me pentear). Ela grita do começo ao fim do processo, não porque sente dor, mas porque precisa mostrar que está resistindo bravamente aos meus desejos. Puxo os cabelos da frente da cabeça para trás, amarro o mais rápido que posso, antes que ela desista.

Pronto, por alguns instantes sinto como se a ordem voltasse a reinar no universo, já posso fazer outra coisa agora. Lavar a louça, por exemplo. Antes abro todas as portas e as janelas, até as ventarolas. O vento sopra tudo pela casa, de poeira a pensamentos, a represa foi aberta, agora o quintal virou uma extensão da casa. O sol já brilha bem forte, as roupas estão na máquina para lavar.

Mamãe, vamos dar banho nos cachorros? Sem pensar direito, respondo que sim. Não medi as consequências e quando vi, Francisco já tinha ligado a mangueira e encharcava a área em frente a casa. Lugar errado, momento errado. Numa época de seca aquela água jorrando me dá arrepio, aflição e a culpa de séculos.

Ele pede ajuda e quando percebo sou eu quem segura, molha, ensaboa e enxágua os bichos enquanto ele brinca de escorregar na calçada. Já tirou o pijama e está de cuecas. Catarina, como sempre, o imita. Aviso que a brincadeira deles é perigosa, que podem escorregar, o chão está liso e não vai demorar para acontecer. Não digam que não avisei! Um, dois, três tombos e muito choro depois, desistem.

Procuro aproveitar o máximo da água do banho para lavar a calçada. Lola, Pikaxu, Siriguela e Florzinha estão devidamente asseados e cheirosos na medida em que um cachorro pode ficar cheiroso

Com o rodo, direciono a água para a canaleta que desemboca num mar de grama. Consigo, não sem protestos acalorados e filhos emburrados. Um riozinho de água suja, sabão e pelos de cachorro, então sugiro que façamos barquinhos de papel para navegarem ali. Não sei de onde me veio essa ideia.

Os dois me olham com um misto de expectativa e dúvida. O tempo para. Já na sala, com papéis retangulares na frente de cada qual peço que reproduzam o que eu fizer: dobra uma vez ao meio, assim, isso, muito bem. Agora mais uma, isso, parabéns. De repente percebo que faz algo em torno de trinta anos que não faço um barco de papel e esqueci o próximo passo. Nosso projeto de barco mais parece um chapéu, tento não demonstrar pânico e peço ajuda ao pai das crianças. Ele não esqueceu como se faz, e logo temos três barquinhos tentando flutuar na canaleta suja. A água secou e os barquinhos encalharam.

A frustração fica estampada nos rostinhos dos dois, acho até que vejo lágrimas vazando dos olhinhos pretos da Catarina e uma tromba de elefante grudada no rosto do Francisco que tinha até feito um homenzinho de papel para ser o capitão do barco. Já sei, vamos para o lago! Sete anos morando na frente desse lago e nunca passou pela minha cabeça os tais barcos de papel. Mas agora tudo parece favorável, uma brisa morna sopra trazendo o perfume de flores de laranjeira, o sol transforma tudo num verde brilhante, a água num espelho.

Ele se aproxima da beiradinha da lagoa, os pés na terra, leva as mãos à água e o barco flutua naquela imensidão, entre girinos pretos que pululam pelas bordas e folhas secas que carregam formigas. O homenzinho navega, o menino fica feliz com a proeza de sua criação, canta uma canção de marinheiro, toca o apito. É ele quem está ali dentro. O vento sopra o barco de papel para um lado, então para outro e todos vibram, até que ele derrete junto com o sorriso do menino. O barco e o homenzinho se diluem na água e a brincadeira acaba.

É um encanto efêmero, como o das bolas de sabão, das flores e  da própria vida, que em algum momento dissolverá, tornando-se mais um pedaço de infinito. 

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