Os sinos da catedral

Seis da manhã. Ouço as primeiras badaladas dos sinos da catedral próxima e ainda penso nele. Na sua calça jeans desbotada, rasgada e quase sempre desabotoada, na pele queimada de sol, sublinhada por cicatrizes que não sei a origem. Nos ombros, tatuagens descoloridas, desenhos que ocupam quase todo o braço. Lado esquerdo, cobra. Lado direito, tigre. São seus olhos que me olham quando encaro seu peito nu. Figuras dóceis e indefesas diante do corpo que as abriga.

Vejo-me naqueles olhos, assustada e hipnotizada. Meu desespero é o seu amparo. Toco em seus cabelos, detenho meus dedos entre os vincos da sua testa, os ouvidos atentos à voz rouca e ríspida, embriagada de uísque barato.

Ele sempre aparecia junto com os sinos da igreja. Com o frio da madrugada e a neblina que embaça as vidraças. Tento fugir do sono, mas sou capturada pela cama aquecida e o barulho dos pingos de chuva no telhado.

A calça era a mesma, desbotada, rasgada, desabotoada. Uma camisa branca displicentemente aberta, que encobria parcialmente seus bichos de estimação, revelando as pequenas imperfeições da sua pele em alto-relevo. Ele parecia conviver bem com elas, o bastante para passar quase todo o tempo sem camisa. Sempre arrancava-a quase com raiva, largando-a pelo caminho feito pano de chão.

Ouvi o som oco das suas mãos escorando-se na parede para não cair. Os passos arrastados no corredor, esfolando a sola do pé no piso áspero de cimento. No instante seguinte, a porta do quarto se abriu num estampido.

Seus olhos me engoliram mais uma vez. Lembre-se, ele tinha seis olhos. Seus pés agora marcham em minha direção. Fecho meus olhos e tento me lembrar de quando era bom, de quando ele era bom. Penso em minha mãe, uma prece, talvez. Fujo! Quase grito quando ele segura minhas mãos como quem vai fazer um carinho e dali seus dedos seguem devagar, uma mão no pescoço e a outra na nuca agarrando carinhosamente os meus cabelos, o corpo prensado contra o colchão.

Eu me vi naqueles olhos embriagados novamente e tentei resgatar-me, mas não havia mais ar, mais espaço, só aqueles olhos profundos que me afogavam. Os sinos da catedral ainda repicavam.

Meu corpo, então, se rendeu a uma tranquilidade assustadora, observando o sol que acabara de nascer e projetava em sua sombra os ombros do homem que eu amava. Incansáveis como asas de águia,  eu podia enxergá-los na parede opaca.

Mantive os punhos e os olhos fechados, firmes, escondendo a lâmina fria e pontiaguda com a qual costumava me distrair rabiscando a pele. Comecei a sentir o suor entre os dedos. Apertei a palma da mão com tanta força que uma fenda se abriu nela, bem onde fica a linha da vida. A linha do destino. Aquela cigana. Disse que eu ia viver. Muito. Sua linha da vida é bem longa, ela me falou com uma certeza que eu não queria acreditar. Queria descobrir o que doía mais. Se era viver ou morrer.

Quando o sangue começou a escorrer pelos punhos, a lâmina, já aquecida, escorregava. Não podia mais esperar, os sinos continuavam no seu vaivém cada vez mais lento e silencioso em cumplicidade absoluta: a primeira cravada nas costas começa a devorá-lo por dentro; cada badalada conduz a uma estocada. As mãos enfraquecem. As pernas, já sem comando, começam a escorregar. A brutalidade é amolecida pela poça que se forma entre as pernas e respinga sob o impacto dos movimentos desordenados.

Ele ainda insiste em manter seus seis olhos abertos, mas era apenas questão de tempo. Aos poucos, seu corpo desliza, esvaindo-se, ajoelhando-se. Pela última vez eu me vi naqueles olhos, que, agora, assustados, me pediam socorro. Eu vi suas feras, que antes me devoravam, abatidas. E as calças desabotoadas e desbotadas agora estavam tingidas de um vermelho vivo e triste.

Diante de mim, era apenas um corpo frio e eu já não tremia. Em minhas mãos, sangue e suor, sem lágrimas. Como deveria ser.

Enfim, os sinos da catedral pararam de bater.

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