O frio de Curitiba

O dia passou por mim empurrado por um vento frio que soprava desde as nuvens do céu, passando pelas árvores e chegando às minhas neuras. A noite caiu e o mesmo vento segue empurrando o planeta rumo ao dia. Dizem que amanhã será mais frio que hoje, talvez esse vento seja a famosa massa polar caminhando em passos largos, como um monstro interplanetário.

Acho até que o frio tem seu encanto, mas o maior encanto do frio é fugir dele. Se esconder debaixo de cobertas quentes, tomar sopas e chás que queimam a língua.  Ver a fumacinha saindo branca da boca também era algo que me divertia muito na infância.

Eu sempre estudei no período da manhã, então às sete e meia, já estava no portão da escola batendo o queixo. Tinha dias que a primeira aula era a de Educação Física. Esta consistia muitas vezes em dar voltas e mais voltas numa pista de areia que contornava uma cancha poliesportiva a céu aberto. O frio entrava pelas narinas, fazendo a garganta doer, o nariz e as mãos amortecerem. Pensando bem, isso deveria ser proibido, provavelmente até já seja proibido submeter crianças ao inverno matinal em Curitiba. Todos os amigos sentiam o mesmo, o que aliviava aquele martírio era a amizade, ao menos corríamos todos juntos, tagarelando, o que fazia com que além de sentirmos esses sintomas de congelamento, também sentíssemos aquelas pontadas chatas na barriga, que mais tarde descobri serem bolhas de gases que aconteciam por corrermos de boca aberta, engolindo ar frio como se fosse comida.

A comida é sem dúvida, a melhor parte do inverno, depois do sono. Na verdade, antes e depois do sono, comer coisas quentes, calóricas e gordurosas é o supra sumo do inverno. Tomar vinho também ajuda a tolerar essa estação do inferno, opa, do inverno.

Mas eu, naqueles dias muitíssimo frios, quando abro a janela e vejo o mundo congelado e branco como o reino de Elza, penso em me mudar para a Bahia e relembro com saudades dos banhos de mar, do sol batendo no corpo semi-nu, daquele fim de tarde alaranjado, do chopp na praia e da brisa morna, que ao contrário do tapa na cara do vento frio, é  um carinho na alma. Sem falar nas roupas que secam minutos depois de estendidas no varal. É inegável, o verão é mais alegre, mais festivo, embora canse depois de um tempo, também.

Por falar em roupas, um dos problemas que considero piores do inverno, são elas, seja porque sujam mais e secam menos, sendo contaminadas pelo cheiro horroroso do bolor, fruto de uma umidade eterna, seja porque não tenho vontade de tirá-las nunca. Tomar banho se torna um medo físico real. Também não tenho vontade de escovar os dentes ou lavar as mãos, embora eu saiba que isso não é nada recomendável, além do que tenho filhos e preciso dar o exemplo. Busco forças na oração e faço o que precisa ser feito, não sem dor.

Isso me faz perceber que fiz um mal julgamento das russas que moraram comigo na Inglaterra. Lembro de detestar ficar perto delas, porque fediam muito. As observei tempo suficiente para ver que elas só tomavam banho uma vez por semana. Seu quarto tinha um cheiro azedo, uma mistura de suor e urina. Eu achava aquilo o fim do mundo. Hoje, não tiro a razão delas. Acho que minha aversão ao frio ficou mais aguda com a idade.  

Outra coisa incômoda do inverno é se olhar no espelho e estar sempre com cara de alguém que, se não está doente, está prestes a ficar, ou então acabou de sair de uma virose. Olhos vermelhos lacrimejantes, pele ressecada, boca rachada, nariz escorrendo. Tudo isso faz parte de um estado físico natural da minha pessoa no inverno e pelas minhas observações, da maioria dos humanos.

Tudo bem, meus ancestrais eram ucranianos e italianos, viveram invernos bem piores do que eu, porque além de habitarem o hemisfério norte, gozavam de muito menos conforto. É possível que não gozassem de conforto algum, se não contabilizarmos a vodka. Veja bem, hoje temos água quente encanada, ar condicionado e carros para nos levar para lá e para cá num ambiente protegido, mas ainda assim, quando chega lá pela metade do inverno, amaldiçoo essa estação com todas as minhas forças e me pergunto por que diabos escolhi viver nessa terra gelada.

Outro porém do inverno curitibano é que ele tem suas pegadinhas. Tem dias que amanhece cinza, frio e com garoa. Se eu tivesse que descrever este clima com uma palavra eu diria que a palavra seria “triste”. É um clima triste, que só me faz ter vontade de dormir e não colocar os pés pra fora de casa. Então, quando finalmente a pessoa toma coragem, veste roupas e mais roupas para minimizar o desconforto e vai viver, o sol aparece no meio do dia, e a gente precisa tirar todas as roupas que tinha colocado, inclusive aquela meia calça por baixo da calça. Lá pela hora do almoço você se arrepende de não ter trazido um biquíni por baixo de tudo, para tomar um bronze na praça. Então, com aquele calor absurdo, você sonha que é um prenúncio do verão e que o frio jamais voltará, só que não. Aos poucos o sol vai caindo e o frio vai voltando, piorando mais e mais, agora além da garoa e do frio, está escuro e hostil. Nesses momentos não há lugar como o lar.

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2 comentários sobre “O frio de Curitiba

    • Grata Cy! Sabe que agora o inverno está muito louco, tá parecendo verão! hoje por exemplo estou de mangas curtas! beijo grande

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