Contrafluxo

Por André Lisbôa

Em menos de uma hora a cidade será bombardeada. Fora alarmado em voz rouca pelo locutor de rádio. Aproximam-se, pelo norte, mais de cinquenta aviões grávidos de bombas.

Desligou o aparelho e suspirou. Os cabelos brancos denunciavam os anos de vida. Pegou o maço de cigarros sobre a escrivaninha, ao lado de felizes porta-retratos, e dirigiu-se à janela. Acendeu o fumo e puxou a ponta da cortina. A fumaça serpenteou o denso ar. Para além da janela, a cidade corria em desespero mudo. Fugiam rumo a um porto inexistente. A capital estendia-se por vinte quilômetros em todas as direções.

Cruzou a sala de móveis idosos, sob a fumaça do cigarro, que ainda pairava feito cortina no teto. Atingiu o corredor e abriu silenciosamente a porta de um dos quartos. A menina não o notou, absorta numa reunião cujo único ser animado era ela. Faziam par duas bonecas descabeladas, um urso marrom e um elefante bege. Tinha a pele branca e delgada, de quem o sol tornou-se uma promessa nunca cumprida. Percebeu-se observada e levantou o olhar. Foi recebida com lento sorriso.

— Se arrume que vamos almoçar fora — o convite fê-la pular de alegria. Correu até ele e jogou-se em seu colo.

— Vou poder sair na rua?!

— Vai sim, meu bem.

— Mas, vovô, a mãe ainda não voltou do trabalho.

— Não tem problema, vamos só você e eu. Coloque sua roupa de passeio e se arrume bem bonita. Beijou-a ternamente no rosto e largou-a no chão.

A menina correu para o armário e ele saiu na direção do banheiro. Ligou o chuveiro na temperatura máxima. Esperou o ambiente cobrir-se em penumbra branca, repletas de gotículas de água, e entrou na ducha. Barbeou-se, apertando o olhar no espelho embaçado, tomando extremo cuidado para não lesionar a pele flácida. Depois de barbeado, deixou a água quente cair sobre as costas, desfrutando por alguns minutos de um último prazer.

Terminou de secar-se no quarto. Vestiu terno de linho escuro, camisa branca e chapéu. Perfumou-se com colônia francesa. Não a utilizava desde o velório da sua mulher, assim como a roupa vestida. Antes de sair olhou-se no espelho, estava dignamente trajado para o evento final. Faltava apenas o lenço preto no bolso esquerdo. Voltou ao quarto da filha, e encontrou a neta novamente em roda. Estava linda e radiante, com sobretudo claro, e trazia seu presente, o chapéu cloche, tampando os finos cabelos loiros. Nunca imaginou a neta estreá-lo nesta ocasião.

— Vamos!

Ela despediu-se do grupo de amigos e depois correu na direção dele. O velho agarrou firme em sua mão, ao ponto de ela estranhar o toque. Desceram em silêncio a escada de mármore branco até atingirem o portão envidraçado, que dava acesso à rua. Ao abri-lo, uma multidão de ruídos lançou-se sobre o corredor e subiu a escada em ecos cada vez mais fracos. Na rua, a procissão rumava ao sul, feito romaria de ciganos desafortunados. Tomaram a direção norte. Fazia um dia ensolarado de outono e não havia nuvem no céu. Ao alcançar a rua, a luz matinal ofuscou os olhos da menina, que subiu a mão à vista. Levou alguns minutos para acostumar-se à claridade e só então se percebeu em meio à multidão.

— Vovô, para onde está indo todo mundo?

— Não sei, querida, deve ser um circo novo que chegou na à cidade.

— E nós, não vamos para lá?

— Quem sabe, outro dia — respondeu.

Deveria ser um circo muito bom, pois quase toda a cidade seguia na sua direção. Alguns levavam animais de estimação, além de porcos, papagaios e até um boi. Outros carregavam malas pesadas, estufadas ao ponto de não suportar o conteúdo que continham. O circo deveria ser bem caro. Muitos levavam joias e até havia um que arrastava uma penteadeira, de onde pulavam das pequenas gavetinhas pedras reluzentes, que rodopiavam brilhantes pelo chão.

O velho caminhou puxando a neta, desviando de tempos em tempos dos obstáculos humanos. Por vezes era xingado, geralmente de velho ou louco, às vezes sua composição. Os dois eram os únicos em contrafluxo. Ele olhava para as lojas, buscando um ambiente que estivesse no mesmo ritmo deles, mas, em sua maioria, estavam fechadas ou abandonadas. Das portas escancaradas, viam-se móveis revirados, cadeiras de ponta-cabeça, vidros quebrados ou pessoas correndo de um lado ao outro, sem saber o que fazer. Demorou uma boa caminhada até encontrarem um local adequado. Era um pequeno restaurante, onde um senhor limpava as mesas e arrumava os assentos, preparando o local para receber clientes. Pararam em frente ao estabelecimento.

— Estão servindo almoço hoje?

— Como todos os dias — respondeu com um sorriso estranho.

O senhor robusto, daqueles italianos bem alimentados à pasta, ajeitou uma das mesas, e ambos sentaram. Depois fechou a portinhola de acesso à rua e sumiu bar adentro. Tomaram lugar na parte externa do restaurante, por sorte cercada, separada da multidão. O velho achou irônico encontrar no vidro do local um cartaz sobre a pax, o acordo de paz que estava prestes a ser descumprido. O italiano voltou com avental amarrado na cintura e entregou o cardápio.

— O que desejam?

— O que tem de mais gostoso na carta! Não importa o valor!

Mio signore, especialmente hoje, estamos em promoção. Está tudo por conta da casa — respondeu sorridente — vocês podem escolher o que quiserem.

— Eu quero torta de chocolate e cinco bolas de sorvete — disse a menina, excitada com a liberdade oferecida. Depois pousou desconfiado olhar no avô.

— Para mim pasta de frutos do mar, bem caprichada! — ordenou.

— Fique tranquilo, será a melhor de sua vida. E para beber?

— Uma taça de vinho para mim, e uma gasosa para minha princesa.

O garçom sumiu de onde veio e a menina continuava a olhar o avô. Uma senhora com excesso de roupas passou, com um pavão no colo e chamou atenção dele. Vestia diversos casacos de pele sobrepostos, muitas joias nas mãos e no peito, onde o animal agitado queria abrir as asas, mas ela o apertava sobre os seios. A garota, não sendo notada, remexia-se na cadeira. Agitou-se até que o velho notou sua inquietação e retribuiu o olhar.

— O que foi? — ela se envergonhou. O assunto a tratar parecia constrangedor.

— Pode falar, vovô não vai ficar bravo.

— É… que mamãe… sempre diz que eu não devo pular o salgado e ir direto aos doces — o avô soltou sorriso espontâneo, depois mirou o pequeno ser à sua frente.

— Fique tranquila, será um segredo só nosso — e piscou com o olho direito.

A porta do restaurante foi aberta. Uma melodia orquestrada escapou do local. Era como um hino, sem voz, tocado por uma banda. Logo em seguida, o garçom saiu trazendo as bebidas. Seus gestos estavam embaralhados, diferentes de minutos atrás. O velho estranhou o fato de tê-las apoiado sobre um pires preto, talvez a fim de não manchar a mesa, que era composta de madeira crua. Serviu-os com certa pressa, escondendo o rosto para não denunciar os olhos úmidos; depois sumiu, afobado como chegara.

O velho bicou o vinho, acendeu o cigarro e deixou a mente vagar. A neta se acalmou. Vencido o assunto que a atormentava, entrou num profundo devaneio. Aproveitou para olhá-la com calma. Enquanto fumava, por detrás da fumaça do cigarro, viajou há um tempo quando era alguém do tamanho dela. Refletiu sobre tudo o que vivera desde então. Todas as alegrias e infortúnios passaram em sua mente, num breve filme de flashes mnemônicos. Ele era um velho senhor no fim da vida, mas ela era uma flor. Uma jovem flor há pouco florescida no jardim da vida, prestes a ser podada, sem ao menos atingir o auge da maturação.

A multidão tomou repentino alvoroço. Pareciam ter avistado um monstro se aproximar. Corriam uns sobre os outros, como estouro de manada. O predador deveria estar no início da rua e próximo, pois o pavor tomou proporções descomunais. A menina não notou um jovem garoto, da sua idade, sendo pisoteado. Ele abaixou-se para pegar o pequeno avião, que há segundos antes planava seguro em sua mão, rompendo o elo que o unia à mãe e ficou para trás. A senhora, finamente trajada, tentou voltar, mas a rua tinha fluxo único: fugir! Um rolo compressor de pés o lançou ao chão e esmagou-o sem piedade. A garota olhava há alguns minutos para o horizonte, na direção contrária à que todos fugiam. Estava compenetrada, hipnotizada por algo que a chamava atenção.

— Vovô, aqueles são os aviões que papai foi pilotar?

— Não, querida, aqueles são outros.

André Lisbôa é bacharel em Direito e Fisioterapia, florianopolitano e aspirante a romancista. 
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