Cidadão comum

Tem sorte de não verem o seu rosto, é nisso que ele acredita, pois precisa telefonar para centenas de desconhecidos oferecendo planos e assinaturas que são bons negócios apenas no discurso que fora obrigado a decorar. Detesta trabalhar com vendas, mas pelo menos tem emprego. Como sua avó dizia: nada é tão ruim que não possa piorar. Então trata de cumprir as malditas metas diárias de ligações e não desiste da pessoa do outro lado da linha nem depois de ela bater o telefone na sua cara – sempre liga de novo, pois cada negócio empurrado garante uns trocados a mais em comissões. Uma rotina insuportável que o faz desejar pelo fim do expediente como um cachorro de apartamento deseja desesperado ir à rua para cagar. E hoje, graças a Deus, é sexta-feira! Ao bater 19 horas o cidadão comum já estava com o computador desligado; permanecia sentado em seu posto de trabalho apenas para evitar chamar atenção do chefe.

A rapidez com que saiu da firma durou apenas até colocar o carro em movimento. Andem imbecis! Ele está com pressa, mas parece que todos os outros motoristas não; aliás, parece que na sexta-feira à noite todo mundo desaprende a dirigir. Caralho, parou tudo. A irritação se mistura com resignação: não tem o que fazer, mas segue esbravejando. Pelo retrovisor enxerga um jovem negro atravessando a escuridão produzida pelas árvores nas calçadas e decide subir o vidro da sua janela. É preciso ficar esperto, preto e bandido são sinônimos. O jovem passa, mesmo assim o cidadão comum o acompanha com o olhar até seu carro retomar o movimento e dobrar em direção ao supermercado.

Depois de finalmente conseguir estacionar, porque toda a cidade resolveu ir ao mesmo supermercado ao mesmo tempo, o cidadão comum sai do carro, enxerga uma mulher vestida com aquela calça apertada nos lugares certos e é tomado pela certeza de que é uma puta. Para ser tão cavala de gostosa, é impossível trabalhar, estudar, cuidar dos filhos: é da academia para o pau, do pau para a estética, da estética para outro pau. Ok, pode ser casada com um cara rico, mas continua sendo puta. Enquanto refletia sobre o comportamento sócio-sexual da moça, seguindo-a pelo estacionamento em direção à porta do supermercado, usou o celular para fotografar a bunda da potranca e enviou a imagem aos amigos do grupo de Whatsapp Peitos & Rabos. Mesmo com o olhar vidrado naquele vinco que engolia a (ou mostrava a ausência de) calcinha, precisou parar de seguir a gostosa, pois se dirigiram à seções diferentes. Agora ele focou nas compras necessárias, só que, porra! É um inferno esse bando de velhos – têm o dia inteiro para dormir no supermercado se quiserem, mas preferem atrapalhar quem trabalha para sustentar as suas pensões que só fodem os cofres públicos. Podia ter uma lei proibindo velhos e crianças nos supermercados a partir das 18h. Mas deixa pra lá, ele está morrendo de fome, não come nada desde o almoço; decide abrir um pacote de bolacha recheada para aliviar o buraco no estômago enquanto ainda precisa pegar mais algumas coisas.

Deu, agora é procurar a fila menos pior. Mas a menorzinha tem um casal de gordos com dois carrinhos cheios de porcaria (depois reclamam de preconceito e dizem que não conseguem emagrecer) e, para piorar, o empacotador é doente – trata-se de um homem com limitação motora e o cidadão comum questiona-se por que não escondem esse tipo de gente no depósito.

Mal sobrou um espacinho atrás das compras do casal de gordos, o cidadão comum passou a empilhar as suas na esteira rolante (exceto o pacote vazio de bolacha recheada, que deixou no carrinho); o objetivo era agilizar, claro, pois tudo estava muito lento, mas precisou olhar atravessado para a funcionária do caixa, aquela incompetente que quase passou um dos seus produtos junto com as compras dos gordos. Puta merda, ainda tem esse mongolóide que mal consegue abrir as sacolas. O cidadão comum começou a ensacolar suas coisas, indignado com a falta de consideração do supermercado com o cliente, mas decidiu não reclamar, senão algum idiota politicamente correto pode querer briga.

Pronto! Finalmente fora dessa porcaria. Agora é ir direto para casa, tirar os sapatos, tomar um banho, comer e escolher algum filme ou série.

Antes é importante assistir ao telejornal. O cidadão comum não é mais alienado, preocupa-se com os rumos do país e está marcando o nome de cada político que aparece envolvido em denúncias de corrupção. O cidadão comum agora tem opiniões fortes e usa as redes sociais para expressar a sua indignação. Foi exatamente isso que fez após ouvir mais um pronunciamento do Presidente da República tentando justificar o injustificável: Eles estão cagando e andando para o povo, só pensam em si, por isso o país é essa merda! #vergonha #partiuamerica #braziu

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4 comentários sobre “Cidadão comum

  1. Meu caro, “Lisandro Pessi”.
    É um prazer, falar contigo.

    Li seu texto e, não pude deixar de passar para deixar um comentário.
    Sou estudante da “Escrita Criativa”. E como um bom aluno que me esforço para ser, procuro prestar atenção em detalhes do texto que nem sempre estão diretamente ligados com a “gramática”.

    Lendo seu texto hoje pela manhã, acabei me lembrando de uma cena do filme que revi ontem depois do jantar.
    O título traduzido é: “Ligados Pelo Amor” – se não me engano o título oficial é: “Writers”.
    Se não viu, recomendo.
    Em uma das cenas do filme um dos personagens (que é escritor), comenta com o filho sobre algumas frases ou palavras marcantes que podem chamar a atenção do leitor, durante o processo da leitura. O tal do, “fisgar o leitor”.
    Então, meus parabéns. Seu texto me fisgou. Rs.
    Quero deixar anotado, algumas das partes que mais me marcaram. Eu, particularmente, gosto muito de textos com bom humor. E o seu texto, tem várias passagens bem-humoradas. Cheguei a rir alto aqui na frente da tela. “Poderes Ocultos da Literatura”. Rs.
    Abaixo algumas dessas passagens:

    “… o cidadão comum sai do carro, enxerga uma mulher vestida com aquela calça apertada nos lugares certos e é tomado pela certeza de que é uma puta. Para ser tão cavala de gostosa, é impossível trabalhar, estudar, cuidar dos filhos: é da academia para o pau, do pau para a estética, da estética para outro pau. Ok, pode ser casada com um cara rico, mas continua sendo puta…”

    “… só que, porra! É um inferno esse bando de velhos…”

    “… Mas a menorzinha tem um casal de gordos com dois carrinhos cheios de porcaria (depois reclamam de preconceito e dizem que não conseguem emagrecer)…”

    “…(exceto o pacote vazio de bolacha recheada, que deixou no carrinho); o objetivo era agilizar, claro, pois tudo estava muito lento…”

    Muito bom, meu camarada. Rs.

    Como em meus textos, às vezes tento escrever passagens engraçadas, e dificilmente quem escreve saberá se o efeito desejado foi o obtido, a não ser é claro, que algum leitor nos avise e confirme.
    Não sei se isso lhe pode ser útil, com certeza, me ajudaria.
    Então é isso. Meus parabéns mais uma vez. Abraços.

    Brito Santos.

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    • Olá, Brito!
      Obrigado pelo comentário. O seu feedback é útil sim. Confesso que não escrevi esse texto para as pessoas rirem, mas depois de publicar, o texto é do leitor. Abraço!

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