Metamorfose ou tempo de viver

Hoje pela manhã, quando me olhava no espelho, puxando os cabelos para trás, para prendê-los, percebi que ganhei fios novos e brancos. Analisei cada um, sua textura, comprimento, elasticidade, em tudo diferente dos coloridos, que ainda são a maioria absoluta. Será que o tempo é uma enorme borracha?

Concluí que cada fio esconde profundos ensinamentos. Mensagens longínquas de um tempo que vem caminhando aos poucos, devagar, minuto após minuto, dia após dia, enquanto preparo o almoço, levo as crianças para a escola, leio um livro e me estresso no trânsito. Sem fazer alarde, o tempo vai exercendo sua arte mestra, deixando rastros muito sutis. Vejo que também passou pelo meu rosto, mudando milímetros, ou talvez ainda menos do que milímetros. É mínimo, uma arranhadura e outra ao redor dos olhos e outras duas mais na testa.

Numa criação às avessas, o tempo artista vai tornando minha pele mais opaca, menos ruborizada. Ele está me transformando na velhinha que eu vou ser. Destas que passam imperceptíveis, caminhando lentas, esquecendo onde colocaram as coisas, mexendo no jardim.  

Por um instante, enquanto olhava minha figura refletida, pude enxergar meu futuro rosto. É como se agora eu estivesse entre a criança que eu fui e a velha que serei. Ainda tenho traços da criança e da moça e agora, neste limbo estou eu, na metade da corrida, me percebo totalmente mulher. Dentro da exuberância atual, sinais de que isso não é eterno, como nada é.

As mudanças externas são pequenas se comparadas com as de dentro. Todas as minhas paisagens internas foram objeto das mais estranhas metamorfoses. Valores, crenças, gostos, paixões, tudo que já me pareceu eterno, se mostrou efêmero. Todas as verdades absolutas caíram por terra, os ídolos me decepcionaram. Tudo como se eu fosse uma pedra e a vida, o vento, que transforma qualquer certeza em poeira. Minha casca dura se convertendo em carne macia e atrás disso tudo, expondo meu coração a um mundo tão mais vasto do que eu concebia antes do agora. Me sinto mais sensível, mas também mais forte. Percebo que tudo o que já me aconteceu, de bom ou de ruim, teve o único objetivo de deixar esse meu peito suportar a glória, de olhos e braços abertos, para o que vier.

Ciente de tudo disso, já com os cabelos arrumados, escovei os dentes, passei um batom e fui viver.

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15 comentários sobre “Metamorfose ou tempo de viver

  1. Adorei Mel ! A vida é essa constante mutação do do a dia , ano a ano, décadas que voam . Nos transformamos e cada idade tem sua beleza . O mais importante é perceber as mudanças, aprender com as dores e alegrias e nos tornarmos pessoas melhores. ” só envelhece quem tem o privilégio de viver .”

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  2. Muitas sensações senti ao ler tua crônica Mel, me vi no teu texto, senti certa tristeza em perceber o quão rápido é o tempo , ele escorre entre nossos dedos, pudera eu segura-lo (ainda não estou madura pra suportar a velhice). Sabe que imaginei alguém lendo a crônica em vídeo. Vamos gravar amada!?
    Parabéns amiga, tu escreves muito bem!!!

    Curtido por 1 pessoa

  3. Muitas sensações senti ao ler tua crônica Mel, me vi no teu texto, senti certa tristeza em perceber o quão rápido é o tempo , ele escorre entre nossos dedos, pudera eu segura-lo (ainda não estou madura pra suportar a velhice). Sabe que imaginei alguém lendo a crônica em vídeo. Vamos gravar amada!?
    Parabéns amiga, tu escreves muito bem!!!

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