De abismos e pontes

Colocou as batatas para cozinhar, mas antes, para achar a panela ideal, derrubou todas no chão, fazendo um estardalhaço metálico  que despertou a família inteira.A palavra de ordem de Marta sempre foi: “fazer”. Enquanto as batatas cozinhavam, foi até o quintal e colheu salsinha, manjericão e tomilho. Pegou a tábua, picou tudo e deixou separado para o final da receita. A televisão ligada na missa do Padre Marcelo no volume máximo e ainda eram oito da manhã. Num impeto de fé, cantava fechando os olhos e chorando de aleluia e cebola.  

Por que diabos essa mulher tem que começar a fazer esse alvoroço tão cedo no sábado? se perguntou o marido que ainda gozava da maciez do edredom.

Posicionou a carne para assar dentro do forno quente, descascou os legumes, com os quais faria uma torta salgada. Quando ouviu a gravação do “Carro dos sonhos do tio Tonho”, largou a faca e saiu de pijamas, meia, chinelos e avental  rua afora. As remelas ainda acumuladas nos olhos e os cabelos desalinhados  que lhe davam um ar de louca, não assustaram Sr. Antonio, motorista e comerciante ambulante, que já largou logo um bom dia Dona Marta! Vai uns sonhos aí hoje? Me dá dez de doce de leite, estão fresquinhos? Mas é claro, fritei agorinha há pouco. Agradeceram-se mutuamente e ela voltou para a cozinha, tirou a batata do fogo e escorreu os tubérculos na pia.

O café da manhã estava posto desde às seis. O cheiro da carne assando tão cedo, pareceu à Roberta, uma provocação, considerando que recém comunicara à família sua decisão de se tornar vegetariana. Deixou a cama pisando forte e rosnando, revoltada. Será que a mãe fazia ideia do quão difícil era tomar a decisão de parar de comer carne, tanto mais  sentindo cheiro de costela de boi às oito da manhã? Será que ela não poderia ser mais colaborativa?

Foi até a cozinha ainda de pijamas e pronta para vomitar seu discurso vegano sobre a insensibilidade da mãe, quando se deparou com a mesa posta e sonhos de doce de leite sobre ela. Seu  coração quase se enterneceu. Quase. Mais isso agora, pensou, além de destruir meus planos de evolução espiritual, ainda vai acabar com a minha dieta. Ela não se importa mesmo se eu virar uma gorda mórbida. A mãe a recebeu sorridente, perguntando se havia visto que tinha comprado seus sonhos preferidos. Ela não respondeu, engoliu a irritação a seco. Faz o favor de chamar seu pai para tomar o café da manhã, meu amor? Lá foi Roberta contrariada despertar o pai. Quando abriu a porta do quarto, levou um susto. Ele estava nu. Fechou a porta antes de observar seus detalhes anatômicos. Quando criança, tomavam banho juntos. Agora, ela tinha meio metro a mais e a distância entre eles parecia ter se transformado num abismo. A sua família não era normal, definitivamente, todos pareciam conspirar para tornar sua vida um inferno.

Minutos depois, encontraram-se os três à mesa redonda da cozinha, num silêncio estranho, bem diferente de quando Roberta era criança.  Cada qual se serve de suas preferências, a começar pela adolescente, que corta o sonho ao meio, depois mais uma vez, dividindo o doce em quatro partes. Come com remorso, apenas uma, porque pretende emagrecer antes do baile de quinze anos da melhor amiga.

O silêncio é interrompido pelo pai que tenta quebrar o gelo, perguntando à Roberta se ela já sabe que curso vai escolher no vestibular. Roberta o fulmina com seus olhos azuis que em segundos se tornam vermelhos.  Grita que não sabe o que vai fazer, nem no vestibular, nem da vida e mergulha a cabeça nos braços apoiados à mesa. Sua cabeça pesa mais que o mundo.

Joca promete que não vai mais tocar no assunto e faz um cafuné displicente nos cabelos ruivos da menina, como fazia quando ela tinha seis anos de idade.  Resolve então, elogiar a disposição da mulher para acordar tão cedo a fim de preparar o almoço. Em segredo, esta eficiência de Marta lhe irrita até os ossos, como se o fazer dela o pressionasse a ser um homem que ele não é.  De natureza lenta, Joca é dado mais aos prazeres que aos deveres, ao contrário da esposa, que só pensa em trabalhar e não sabe relaxar e se divertir. O típico caso dos opostos que se atraem.

Joca, com toda a diplomacia que a natureza lhe deu, quer manter a paz no lar. Que cheiro delicioso dessa carne amor, hoje o almoço promete. Você adora a carne que a mãe faz, né Beta? Ela sequer levanta a cabeça. Joca não acerta uma.

Marta  sorri de mentira, o comentário do marido ao invés de alegrá-la, a faz lembrar que ele poderia ter acordado mais cedo para limpar o quintal, o qual está tomado de ervas daninhas há meses. Agora as plantas estavam da altura do muro. Se tivesse tirado a primeira vez que eu pedi, esse jardim estaria lindo, maldito traste.  

Então, numa cena que se repete muitas vezes todos os finais de semana,  Joca vai até a geladeira e pega uma lata de cerveja.  Abre a embalagem como se dentro dela habitasse alguma divindade. Faz isso com uma devoção que não dedica a nada. A mulher olha a cena de rabo de olho, seu semblante vai mudando, perdendo a cor e murchando como se uma bomba atômica tivesse sido jogada na cozinha.

“Você vai tomar essa cerveja agora? Ainda estamos tomando café da manhã, Joca, onde já se viu beber essa hora? Você prometeu diminuir com a cerveja. Olha pra tua barriga, parece que vai sair uma criança de três anos daí de dentro.”

“Tá me chamando de gordo, mulher? Tudo isso aqui é saúde e alegria.”

De repente, um cheiro de queimado, que aumenta progressivamente, em segundos toma conta da cozinha, da casa, do bairro. A carne! todos gritam. A mãe corre para o forno sem colocar luvas e ao tirar a travessa, queima as duas mãos e derruba o prato principal no chão. Mil pequenos cacos de vidro se espalham. Joca levanta para auxiliar, mas já é tarde, os estilhaços atingem a perna de Marta em dois lugares e o sangue jorra.

Agora o piso branco tem poças de sangue e o cachorro se empanturra com a carne queimada enquanto lambe o líquido vermelho viscoso que sai de Marta, sem nenhum pudor e com o rabo balançando.

Joca chama a ambulância, que chega depois de vinte minutos. Marta está paralisada, em choque, até que começa a chorar e seu choro não parece ser só de dor, parece ser um choro secular, ancestral.

Nem Joca, nem Roberta jamais viram as lágrimas de Marta. Ela parou de chorar ainda criança, obedecendo as ordens do pai que não suportava choro de mulher. Marta embarca na ambulância com as mãos em bolhas, toda suja de sangue, os olhos parecem nascentes de um rio.

Roberta assiste ao carro da ambulância subindo a rua e só consegue pensar no destino da mãe. Sente algum remorso pelas grosserias dos últimos tempos. De repente toma consciência que se importa com aquela mulher.

Marta agora está deitada sobre um leito de hospital, com as mãos em carne viva cheias de pomada e as pernas enfaixadas depois de levar cinco pontos em cada corte. Poderá voltar para casa, mas está proibida de fazer qualquer atividade física pelo próximo mês. As lágrimas agora deslizam lentas pelo rosto, caindo no pescoço flácido.

Joca escuta às recomendações do médico, leva a mulher para casa, prepara seu banho, limpa os cacos de vidro e o resto de sangue do chão.

No dia seguinte acorda cedo e resolve tirar todo o mato do quintal. Veste uma máscara, um avental e liga a roçadeira. Marta assiste ao trabalho do marido pela janela do quarto e sente uma secreta alegria ao ver seu desejo sendo realizado, mesmo depois de um mês inteiro de espera.

Logo a filha entra no quarto com uma bandeja, sobre a qual se vêm lírios recém colhidos, que perfumam todo o quarto, ao lado de brioches comprados na padaria e uma xícara de café com leite. Senta na cama, ao lado de Marta e a abraça com ternura.

Joca chega no momento do abraço e aproveita para se juntar às duas. Por enquanto não há abismos, só uma família.

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8 comentários sobre “De abismos e pontes

  1. Mel, adorei!
    Que descricão perfeita! Você me fez tomar café da manhã com essa família que lembra tantas outras.
    Destaque para a pitada de humor e para alguns trechos como esse “mergulha a cabeça nos braços apoiados à mesa. Sua cabeça pesa mais que o mundo.”, uau. O da cerveja também é ótimo ; )

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