Primeiras invencionices

Mamãe disse que será bom ir à escola, que lá vou conhecer um mundo novo. Mas já o conheço destes gibis bem legais que ela me dá. Tudo bem que não entendo muito, alguns balõezinhos tenho que perguntar o que significam, outros, eu invento. Acho muito mais legal inventar. Mas ela me disse que se eu aprender a ler, não vou mais precisar inventar. Vou poder criar as minhas histórias e escrever tudo sozinha. Tá, então eu vou. Será que minha sala será parecida com a da mamãe? Terá giz e lousa para rabiscar também?

Desde pequena eu era assim, metida nas palavras. Queria saber de ler o Gibi da Mônica e as poesias de Cecília Meireles. O significado não importava muito, o gostoso era sentir letrinha por letrinha se juntar. Depois, gostava de subir no muro para contar a descoberta à vizinha: Carollllllll! Tem história nova! Subia na cadeira e me punha a tagarelar tudo à amiga. Inventava monstros sanguinários e bichos que não existiam. Qualquer livro novo dado pela mãe era motivo de contação. Dia que não tinha  história nova, pegava o folheto que a vó trazia da missa e criava meus personagens. Do outro lado, a pequena sequer piscava. Toda tarde era assim, dia sim e o outro também, adiantava o dever e esperava Carol do outro lado do muro. Seria então, o ponto de partida para o mundo novo, o tal mundo que a mãe dizia antes do primeiro dia de aula.

Era época da Rainha da Sucata e a avó não perdia um capítulo. Ao chegar da escola, sempre a encontrava com os olhos vidrados na tevê. Achava tudo muito chato, mas havia uma moça de cabelos negros que chamava a minha atenção, era forte e corajosa. Juntava um monte de quinquilharia na rua e as vendia, e de uma hora para outra enricou. Observava atenta ao folhetim, de lá surgiam palavras até então desconhecidas, sendo algumas delas muito engraçadas a mim: Sucateira, mãe, que é sucateira? Pessoa que trabalha vendendo coisas antigas, filha, para seu sustento. Até ventilador velho, mãe? Sim, panelas e outras coisas.

A mãe me enchia de livrinhos. Um dia trouxe do trabalho um bem fininho, que tinha um menino muito legal na capa: o Marcelo, que assim como eu, vivia fazendo perguntas. Ele queria saber por que o mar não derramava e por que o cachorro tinha este nome. O pai dele dizia que era porque vinha do latim. Daí, o Marcelo achou engraçado e disse que o cachorro devia então se chamar Latildo. Eu gostei demais do Marcelo, ele criava nomes e histórias como as minhas. Marcelo seria meu amigo e Carol tinha que conhecê-lo.

Uma tarde ouvi a vó e o pai conversando. Falavam sobre a Mima, a gata da vó. O pai falava que a gata tinha que fazer uma operação e que então não teria mais filhotes. Tadinha da Mima, alguém tinha perguntado para ela se queria isso? A vó decidiu por ela, achei tão estranho. Paiê, por que vão levar a Mima no médico? Pra ela não ter mais filhotes? Mas, paiê, deixa ela solta. Ela sempre fica me olhando andar de bici no quintal e quando voltar do médico não vai poder ficar me olhando mais, vai ter que ficar só descansando e vou sentir falta dela. Ai menina, deixa de pergunta. Para quê tanta pergunta? A Mima tem que ir e pronto.

Então chegou o dia dos pais e eu já sabia ler e escrever de montão. A professora mandou a gente fazer um cartão e eu queria escrever uma coisa bonita para o pai. Não queria as palavras fáceis, gostava das que tinha aprendido há pouco, das que eu mesma inventava o significado. Então, escrevi uma frase bem grandona. Ah, ele é corajoso, me ensinou a andar de bici e todo mundo cumprimentava ele na rua quando saíamos. Até riam das piadas dele. Acho que combina, vou deixar assim!

Cheguei da escola correndo e a vó estava com a tevê ligada vendo aquela mulher da novela. Ela vendia as coisas velhas e agora morava numa casa bem enorme. Era forte e invencível. Não consegui esperar até domingo e fui logo entregando meu cartãozinho para ele.

Silêncio geral na casa. Pai olha para mãe. Mas o que é isso, menina? Acho que ele não entendeu o que quis dizer: a moça da novela era demais, assim como ele me ensinara a ser!

Dia desses a mãe achou o bilhete. A bonequinha estava com os braços envoltos no cartão ainda com resquícios de glitter.  Nele, a frase que montei aos sete e meio:

Pai, você é ambulante!

* Inspirado no texto: Marcelo, marmelo, martelo e outras histórias, de Ruth Rocha

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12 comentários sobre “Primeiras invencionices

    • Ruth Rocha tem textos incríveis mesmo, Cynthia! Eles marcaram minha infância. Obrigada pela leitura e por estar sempre conosco! Beijo!

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  1. Pingback: INFÂNCIA: Contação Infinita | Coletivo Visceralistas

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