Onde não devo me deixar ir

Segue Tita para o ponto de ônibus, todos os dias a mesma rotina rumo à faculdade. Vivia a fase do tumulto interno, da juventude e suas questões, dos desejos e seus desencontros, do pé no chão e cabeça adiantada no tempo. Uma jovem de aparência sentimental, óculos e roupas largas, bolsa grande transpassada, combinação terrível nos anos noventa. Esperava no ponto, com alguns discos dos Beatles embaixo do braço. Linha São Luís x Santo Estevão. Entrou no transporte apoiando-se na cadeira de uma senhora que não lhe pediu para segurar os discos. Todos os lugares ocupados, precisava mesmo se apoiar na cadeira da velhinha. Enquanto observava seus companheiros de viagem até o destino final viu a personificação de Keanu Reeves fase Matrix. Um susto, um entalo, um nó na garganta, tudo de uma vez alterava seu ritmo cardíaco. Efeito contaminante: ele percebeu o olhar.

Começou ali, naquele cenário hostil, uma paquera sutilíssima, visto que o cara era lindo e Tita apenas a Tita, assim era o que imaginava a jovem com cabelos atrás da orelha e mãos sempre úmidas. Olhou para seus sapatos e detestou ter escolhido o All Star que não se distinguia mais a cor. E aquela camiseta com um coelho estampada? Por quê!? Parou de pensar em suas faltas, não queria mais observar o entorno que antes tanto a interessava, imaginando que aquele poderia ser o encontro de sua vida. Um cara lindo, num ônibus, poderia ser um ator turistando anonimamente na cidade ou fazendo um estudo de roteiro.

O fato é que enquanto não olhava para o homem, Tita imaginava o primeiro contato de pele, quando o motorista do ônibus frearia e ela cairia por cima dele e… Não. Os discos caem e os dois abaixam-se ao mesmo tempo e tocam as mãos e buscam os olhos interessados. Depois de um “obrigada” e um “você quer ajuda?”, descem no mesmo ponto. E das coincidências nascem os sorrisos, então eles se olham novamente e se apresentam, “olá, sou Tita”, “oi, sou o Marcel”. Ela sempre achou esse nome lindo e com certeza ele deveria ter um nome estrangeiro.

Marcel e Tita, após apresentações, estão ansiosos pela próxima etapa: a de avançar num diálogo que gerasse a oportunidade de novos encontros, ou melhor, que fizesse aquele encontro não acabar nunca mais. E assim foi, caminham juntos até a faculdade e ficam na cantina conversando, sorrindo, descobrindo tudo o que tinham em comum, até o final do dia quando ele diz que está tarde e porém não quer deixá-la. Ela diz que é impossível resistir àquele olhar e quer entender o que está acontecendo.

Vão para o hotel onde ele está hospedado com a equipe do filme. Ela senta no sofá, contida e ansiosa, ele tira a jaqueta sem timidez, serve uma bebida, uma taça de vinho branco na temperatura ideal para desinibir e põe na radiola um dos discos que ela levava. Começa a tocar, bem baixinho, Something in the way she moves. Ele se aproxima e toca na sua nuca como se soubesse que esse era seu ponto fraco. Ela se deixa levar pelo afago, cada vez mais intenso. Ele a chama para perto de sua boca e a beija manso, até as bocas se entenderem. De repente ele está sem a blusa, ela com a alça do sutiã deslizando pelo ombro.

Tita olha para o lado, cabeça ainda zonza:

– Marcel?

– O que disse?

– O Marcel, o cara que estava ali…

– O bonitão? Desceu faz tempo, sua boba.

A velhinha revirou os olhos. Não pediu para segurar os discos, nem a bolsa grande, mas sabia de tudo o que se passava no pensamento da jovem. Já fora uma Tita também.

∴∴∴∴∴∴∴∴∴

Trilhas da escrita: Something in the way she moves

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2 comentários sobre “Onde não devo me deixar ir

  1. Aodrei !!! Oze Mô Deusi Tita apaixonada sonhou. Mas deve haver um Marcel mais próximo dela do que imagina . Olha pros lados Tita, pois de repente acontece o encontro rs

    Curtido por 2 pessoas

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