O tempo do afeto

Rio, 16 de julho de 2004

Querida filha,

 Adorei sua carta. São expressões sinceras de afeto que me dão força para vencer as adversidades e tentar afastar as mazelas da velhice que vem chegando de maneira inexorável.

Você conhece o livro “Adolescentes e Crianças com transtornos psicológicos e do desenvolvimento”, de Haim Grunspun, edição Ateneu?

Estou mandando a receita do bolo, potes para guardar condimentos, etc (um deles está com sal light 50% menos sódio) e um minúsculo com cravo em pó, para ser usado no bolo. Segue também a noz moscada.

Creio que você vai gostar da edição especial sobre os gregos.  Muito bom é o artigo sobre Freud.

Seguem luvas e saquinhos de plástico limpos, colher de pau, 2 pares de meia para você e granola.

No embrulho de papel dourado, uma lembrancinha para vocês colocarem sobre a mesa. São pequenos vasos de vidro de Murano que você tinha gostado, e uma taça para as balas de vidro que te mandei da última vez.

Como foi a apresentação do João na semana passada? Estou torcendo para que o trabalho seja o primeiro passo para uma longa parceria.

Perdoe-me a pressa, mas o Correio fecha daqui a pouco.

Beijos e saudades. Grande abraço no João.

Seu  pai.

OBS: Seguem ainda moedas novas para você misturar com as balas de vidro.

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São Paulo, 02 de junho de 2017

Querido pai,

Hoje faz 11 anos que não nos vemos, não nos falamos, não ouvimos nossas vozes ao telefone.  Resolvi te escrever. A velhice e a morte são inexoráveis, você tinha razão.  Assim será comigo e com todos. De que adianta saber disso se não há nada que nos prepare nessa vida para perder alguém que amamos? E a voz, o toque, o abraço, essa presença encarnada tão necessária, o que fazer sem isso? Aceitar a morte de alguém que se quer vivo não faz sentido, pai.

Adorei o livro, não conhecia. Está na estante do meu consultório, ao lado de tantos outros  que você me deu. Outro dia abri um deles e li uma dedicatória sua. Comprado na Livraria Da Vinci, tinha até a nota fiscal. Pai, alguém me disse que essa livraria fechou. Não sei se é verdade. O Rio mudou muito nesses últimos anos. Nem te conto. Mas a confeitaria Colombo ainda existe!

O bolo ficou muito bom. Atualmente faço uma versão dele sem noz moscada e cravo porque as crianças não gostam. Sim, as crianças, pai. Tive mais dois filhos depois do Bruno, acredita? Felipe e Carol. Ela é a minha cara e Felipe é bem danado. Você se divertiria muito com eles. Adoram ler e ouvir histórias, herdaram do avô.

Guardei muitos dos recortes de revista, reportagens e artigos que você costumava me mandar. O artigo sobre o Freud ainda tenho. É realmente muito interessante. Já a edição especial sobre os gregos não sei onde foi parar. Foram tantas mudanças de casa, uma pena.

Sabe que me dei conta que tenho a mesma mania que você, de guardar sacolinhas de supermercado e luvas de plástico? Aquelas que você pegava no Hortifruti, lembra? E eu sempre reclamava dessa sua mania. O que você ia fazer com todas aquelas sacolinhas e luvas? Pois é, até hoje não sei a utilidade delas aqui em casa,  mas se alguém abrir o armário da cozinha, lá no cantinho perto dos guardanapos, vai ver que tem um monte delas.

Colher de pau não gosto, prefiro as de silicone, é a modernidade, pai. Mas pares de meia eu coleciono, e de tempos em tempos tenho que comprar para as crianças. É que eles perdem um pé, furam o outro. É muita criança. Mas você ia gostar dessa bagunça.  E eles também.

Se tem uma coisa que adoro lembrar da infância era do momento em que você chegava em casa depois do trabalho. Sua pasta, aquela de couro preta, sempre tinha uma balinha, um pacote de figurinha. Aqui tem sido igual. Toda criança gosta de presentinho, de lembrancinha, né? Eu chego em casa, mal me dão um beijo e já me perguntam: mãe, trouxe alguma coisa pra mim? Se vier embrulhado num papel dourado melhor ainda.

O João mandou muito bem na apresentação. De lá para cá foram muitas parcerias, pai. Você se orgulharia dele. Trabalha muito, até reclamo. Mas fazer o que, né? Melhor ter trabalho, pois a crise no País é séria. Você ficaria indignado com tudo o que está acontecendo. Uma vergonha.

Queria escrever muito mais, mas o tempo também é inexorável. Preciso pegar as crianças na escola.

Saudades infinitas,

Sua filha.

OBS: Ia esquecendo de dizer que granola aqui é o maior sucesso. Hoje em dia acrescento linhaça e chia, acho que você não conheceu. Ia gostar.

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5 comentários sobre “O tempo do afeto

  1. Dani, muito lindo! Como você disse, uma presença tão necessária, e por isso mesmo, inesquecível. Lendo suas palavras tão verdadeiras e sensíveis, é como se estivesse vendo nosso pai bem na minha frente, tão real… Saudades mil.

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