Sessão quarenta e cinco

Enquanto contava para a terapeuta, pela milésima vez, das minhas frustrações no relacionamento e via que ela perguntava coisas que eu já havia respondido em outras sessões, dando os mesmos conselhos que eu já segui as mesmas mil vezes, me dei conta de que ando em círculos como um urso enjaulado.

Também me dei conta que apenas eu posso decidir o rumo a tomar. Seguir carreira solo, em dupla ou em bando é opção minha. A verdade é que eu adoraria que ela me dissesse o que fazer da vida. Se não desse certo a culpa seria dela e eu ficaria livre dessa cruz.

Mesmo assim vou para mais uma sessão, ansioso, apesar de não saber direito o que vou dizer, ou do que vou reclamar dessa vez. Nosso encontro acontece a cada quinze dias, tempo em que meu humor oscila entre a euforia e a fossa e meus sentimentos pela minha parceira seguem rumo idêntico. Da aversão ao desejo. Do amor ao ódio.

A doutora abre a porta com um sorriso amigável. Neste instante esqueço o que fui fazer ali, mas temos apenas sessenta minutos para colocar minha vida em ordem. É como querer enxugar gelo.

Sento num sofá frio, sobre o qual ela colocou uma manta rústica, que escorrega o tempo inteiro. Quando menciono minha vontade de trair minha mulher, ela contrai o rosto, provavelmente não percebe que faz isso, mas acredito que me julga em silêncio. Quero aproveitar o máximo o exíguo tempo, que escorre pelas paredes da sala, gotejando no relógio digital que ela mantém sobre uma mesinha de apoio, na minha frente, com a finalidade óbvia de que eu apresente meus problemas dentro do tempo estabelecido. A cada minuto se vão quatro reais, posso senti-los voando de minha conta bancária, isso tira minha concentração.

Quando percebo que estou repetindo meu discurso e ela o dela,  tenho vontade de pedir meu dinheiro de volta e fazer logo o que eu preciso fazer, que é abandonar essa mulher e me aventurar atrás de alguém mais compatível.  A verdade é que me sinto confortável com ela, como me sinto confortável com a minha poltrona rasgada e macia demais, que destrói a minha coluna. Sinto-me incrível quando estou sentado ali, assistindo meus programas de televisão e tomando minha cerveja, mas quando levanto, sinto uma dor desgraçada na coluna e percebo que seria melhor me desfazer dela, só que não consigo.

O fato é que o mundo todo é hostil longe daquela poltrona e nos dias em que chego cansado em casa, só quero ficar quieto na maciez daquele estofado puído, como um bebê no útero materno.

Aliás, tenho certeza que escolhi Juliette pelas coisas que tem em comum com a minha mãe, como por exemplo, a mania de cortar as unhas sobre a cama, a falta de habilidade para cozinhar e o hábito insuportável de gritar por qualquer coisa. As duas também tem em comum, o dom de fazer barulhos com a boca após comer, para se livrar dos restos dos alimentos que ficam entre os dentes.

A princípio acreditei que havia me atraído pelos olhos amendoados, pelo cabelo liso e comprido e pelas mãos finas de unhas sempre pintadas, mas com a convivência descobri que ela tinha tudo que eu odiava na minha mãe, mas então já era tarde demais, já dividíamos meu apartamento.

Não tenho coragem de dizer que a detesto quando chego a casa e vejo Juliette de pijamas estampados comendo brigadeiro na panela. Se não bastasse, ainda se encolhe como um cachorro e coloca os pés sobre a minha poltrona, monopolizando a televisão com as suas novelas idiotas. Aos poucos ela dominou aquele espaço antes só meu. Eu tinha liberdade para receber meus amigos, para soltar meus gases em todos os cômodos, até na cozinha. Agora preciso me trancar no banheiro e esperar até que o fedor desapareça no espaço, por que se ela perceber qualquer indício de que sou um animal por detrás da barba bem feita, vai virar a cara.

 Faltam apenas quinze minutos de consulta e ainda não abordei os problemas do trabalho, foram-se quarenta e cinco minutos dedicados à Juliette. Pensar que foi ela quem me obrigou a vir para a terapia, alegando que seria saudável para nosso relacionamento. A contragosto eu vim, sob chantagem, e sigo vindo, até quando?

A terapeuta sugere que eu tente agradar mais, que faça surpresas, porque segundo ela, mulheres funcionam assim. Diz que a receita é infalível e que assim terei todo sexo que preciso. Além do que, aconselha que eu preste atenção ao ciclo menstrual de Juliette, anotando os dias de sua TPM no calendário. Adverte para que eu tenha atenção redobrada nestas ocasiões. Por fim, prescreve que em nenhuma hipótese devo mencionar a palavra TPM  a título de acusação.

Já sei, já ouvi tudo isso antes, mesmo assim confirmo a próxima consulta.

 

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11 comentários sobre “Sessão quarenta e cinco

  1. Mel, gostei bastante. Muito bem contado. Pude enxergar perfeitamente o sujeito. Pobre Juliette, rs.
    “É como querer enxugar gelo”, adorei 🙂

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  2. Oi Mel, gostei do texto e da situação vivida pelo casal, me permita falar o que penso sobre como evitar estes desajustes ,
    More juntos antes de casarem, jamais joguem sujeiro em baixo do tapete, se entregue na relação de corração aberto, e não na defensiva fale o que lhe incomada na relação, ambos! O homem deve ter conciencia que a TPM existe, fique, cego, surdo e mudo😜 . O segredo é a cumplicidadr, tolerancia e amor. Relação perfeita é utopia. Só depois case.
    Teu texto me provocou a vontade de escrever, ja fiz terapia sozinho e de casal recomendo.
    😘❤️🌹🌹

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  3. Realmente a rotina conforta muitas pessoas. Mesmo o personagem tendo ido procurar a terapia para resolver os problemas rotineiros, acabou fazendo parte da rotina da qual ele não quer sair…
    Muito bom Mel!

    Curtido por 1 pessoa

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